2.4.12

O cavalo da noite





Apareceu de madrugada e ninguém sabia de onde vinha. Era um cavalo tão preto, tão preto que parecia azul, da cor das noites profundas.
Tinha corrido sem destino pelas planícies do Alentejo. Quando avistou a brancura do nosso "monte", parou. Veio depois bater com a pata à porta grande da cozinha.
Fui eu que o ouvi primeiro e pus-me em bicos de pés para lhe abrir a porta. Ele viu que eu era pequeno, relinchou, aproximou de mim o focinho e lambeu-me a testa e os cabelos. Tinha nos olhos muito pretos uma água de amizade.
Pedi que lhe dessem uma ração de aveia e o metessem na cavalariça. Como estava tão suado de galopar, enxugaram-lhe o corpo com uma manta e não tardou a deitar-se na palha para dormir.
Os meus pais mandaram saber de quem seria o cavalo, mas dez léguas à volta do nosso "monte" ninguém o conhecia, de modo que o belo animal ficou a ser meu hóspede, à espera de que pudesse montá-lo. Tentavam aproveitá-lo para outros trabalhos e mandados, mas nem a sela ele deixava que lhe pusessem, a não ser com vários homens a agarrá-lo.
Quando fiz sete anos, já então andava de burro, teimei com os meus pais para montá-lo. E o cavalo, que derrubava qualquer um, aceitou-me em cima do selim, deixou-me calmamente enfiar os pés nos estribos, pegar nas rédeas, e começou a andar a passo; depois, num galope muito suave, deu duas voltas ao "monte", mostrando a todos que eu não corria o menor perigo na sua companhia.
Assim nos tornámos amigos e aprendi a levá-lo pela rédea, ao lado do meu pai, até à ribeira, à hora em que o sol se deita nos pastos e a água fresca da rega corre pelas leiras da terra lavrada.
Já lhe chamávamos todos o Cavalo da Noite, mas o meu pai batizou-o com o nome de Pégaso, que era um cavalo da Grécia antiga que voava sobre os montes à beira do mar. E ele realmente quase voava quando disparava a correr sozinho, de boca aberta, bebendo o vento.
Ensinaram-me depois a fazer-lhe festas, a escovar-lhe o pêlo até onde conseguia chegar e a dar-lhe torrões de açúcar.
Principiei a falar com ele:
- Pégaso, de onde vieste? Aqui ninguém te conhece. Percebes o que eu te digo? Gostas de mim?
O cavalo acenava que sim com a cabeça, dava-me turras e lambia-me o cabelo e as orelhas, com a sua língua áspera. (...)
Um dia, assim como tinha chegado, desapareceu de noite, libertando-se misteriosamente da cavalariça fechada à chave, onde os outros cavalos e muares1 permaneceram quietos até o feitor ir levar-lhes a ração da manhã.
Passaram invernos e estios, muita coisa aconteceu, o meu pai foi promovido e já pensávamos até em ir habitar na capital, houve searas perdidas e outra seca grande, que deixou muita gente à fome, e também eu sofri com isso, impotente para mudar o clima e as horríveis diferenças que havia entre pobres e ricos.
Na véspera dos meus treze anos, dormi pouco a pensar nas prendas que me?
dariam e nas que eu desejava. (...)

Urbano Tavares Rodrigues, in A Última Colina, 1.a ed., Dom Quixote, 2008
(texto com supressões).


Nota:
muar: híbrido de burro e égua ou de cavalo e burra.


I

1. Localiza a ação no espaço.

2. Faz o levantamento das expressões temporais que mostram a progressão do tempo da história.

3. O narrador deste conto é, simultaneamente, personagem da história.

3.1. Classifica-o quanto à presença.

3.2. Carateriza-o.

3.3. Explicita a relação que se estabelece entre o narrador e Pégaso.

3.4. Transcreve a metáfora que, no terceiro parágrafo, indicia a afinidade que se vai estabelecer entre o cavalo e o rapaz.

4. A comunicação não se estabelece apenas com recurso à linguagem verbal.

4.1. Prova, com um exemplo do texto, a veracidade da afirmação de 4.

5. "Tinha corrido sem destino pelas planícies do Alentejo. Quando avistou a brancura do nosso 'monte', parou."

5.1. Faz o levantamento das formas verbais presentes no excerto, justificando os tempo(s) e modo(s) em que se encontram.

6. Encontra, no quinto parágrafo, os termos anafóricos utilizados para evitar a repetição do nome "cavalo".

7. Na frase "Como estava tão suado de galopar, enxugaram-lhe o corpo com uma manta...", substitui a conjunção assinalada por outra conjunção/locução com o mesmo valor.

8. Reescreve, em discurso indireto, a única fala do rapaz.

II

Imagina um final para o conto que leste.

O teu texto deverá ter entre cem e cento e trinta palavras, deve ser narrativo com recurso à descrição e ao diálogo e os verbos devem estar predominantemente no preté­rito perfeito e no pretérito imperfeito do indicativo.