2.4.12

A mão que principia ao alto


A mão que principia ao alto o traço.
Rápido antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.

Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto,
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.

O tronco em chama calma, ascende,
acende a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.

O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se leem linhas.

António Ramos Rosa
A Construção do Corpo, in A Palavra e o Lugar



1. O poema é construído num duplo eixo semântico: uma criação estética e uma relação erótica do corpo criador com o corpo criado.

2. É necessário separar os elementos de cada um des¬ses eixos.

3. Salienta-se o poder da mão nos dois campos semânticos: ela é indispensável no ato criador da escrita e no ato também criador da relação erótica.

4 Para este poeta, nada preexiste à criação poética, que não é representação mas expressão; o que existe é o branco da folha. Algo semelhante parece acontecer na relação erótica.

5. O percurso do poema é significativo: da confusão, da força, passa à serenidade; compreende-se, neste caso, o caminho da relação erótica. Mas, em vez de terminar na relação erótica, o poema con-duz ao próprio corpo do poema (versos finais).

6. Em certas tendências da poesia moderna, escrever é um ato homólogo de amar: o corpo da página é homólogo do corpo do ser amado; ambos os corpos proporcionam prazeres semelhantes.