3.4.12

Manhãs Brumosas

Manhãs Brumosas1

Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões2 inglesas,
- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época de banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas3,
Alta, escorrida, abstraía, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, 1886.


1 brumosas: em que há bruma, nevoeiro,
inflexões: modulação ou melodia da voz.
3 ufanas: vaidosas, com ostentação.



I

1. O sujeito poético retrata um quadro natural centrado num determinado perfil de mulher.
1.1. Descreve o ambiente em que ocorre a cena observada.
1.2. Traça o perfil da mulher representada no poema.
1.3. Transcreve do texto duas comparações ao serviço da descrição da mulher.
1.4. Refere dois comportamentos da jovem irlandesa que justificam o epíteto de «audaz» atribuído pelo sujeito poético.
2. Considera os seguintes versos: «E à roda, num país de prados e barrancos, / Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas, / Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.»
2.1. Mostra, a partir da imagem criada pelo poeta, a relação que se estabelece entre o sujeito poético e a mulher retratada.
2.2. Identifica as duas figuras de retórica que concorrem para o sentido dos versos indicados.
3. Faz a análise da estrutura formal do poema.


II

Lê atentamente o texto a seguir transcrito.

Entre os poetas sensíveis à estética de intenção objetiva, merece menção à parte José Joaquim Cesá-rio Verde (n. Lisboa, 1885-02-25 - f. 1886-07-19), que morreu logo no termo de uma juventude passada em estudo no Curso Superior de Letras, em viagens a Paris e Londres, em aventuras tresnoitadas e nos negócios paternos, e cuja influência se faz mais sentir a partir da edição póstuma, em 1901, das suas poesias, coligidas incompletamente pelo seu amigo Silva Pinto no Livro de Cesário Verde (anteriormente, em 1887, fizera-se do mesmo Livro uma tiragem de 200 exemplares que não foram postos no mercado). A ele se deve a expressão poética superior da pequena-burguesia lisboeta irreligiosa e republicana do tempo. Acrescentos feitos em edições recentes revelaram que o poeta procura reagir desde novo (1873, pelo menos) contra a insinceridade piegas, segundo o processo de João Penha: a autorridicularização de uma poesia sentimental por um desfecho burlesco. Acaba no entanto por descobrir o seu profundo tom natural, vencendo tal alternativa ultrarromântica entre o piegas e o cómico. No lirismo erótico, Cesário teve também de vencer o misto hiperbólico de ódio-adoração à mulher aristocratizada e distante, estigma de um sentimento de inferioridade social que tanto se deteta em poetas como Guilherme de Azevedo e Gomes Leal (...).
Cesário Verde é o único poeta do grupo tido como realista que consegue romper, de facto, com a he-rança romântica. (...) Ele é o poeta cuja neurastenia se retrata e ironiza num quadro real, à vista de dramas flagrantes dos vizinhos; que, percetivelmente, deambula e namora em Lisboa, ou examina o campo com o olhar objetivo do adminis¬trador rural. Assim tudo ganha volume: o sonho não diminui a vida: alimenta-se dela e a ela volta, a tonificar-se («Lavo, refresco, limpo os meus sentidos / E tangem-me excitados, sacudidos, / O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato»).

A. J. Saraiva & Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa,
Porto, Porto Editora, 2005.


Para responderes aos itens de 1 a 8, escreve, na folha de respostas, o número do item seguido da letra identificativa da alternativa correta.

1. O Livro de Cesário Verde foi publicado:
(A) na juventude do poeta. :
(B) antes de o poeta falecer.
(C) depois de o poeta ter falecido.
(D) quando o poeta era jovem adulto.

2. A poesia de Cesário Verde revela, desde cedo:
(A) rebelar-se contra o tom da insinceridade piegas.
(B) aprofundar o tom da insinceridade piegas.
(C) estar a par do tom da insinceridade piegas.
(D) recriar o tom da insinceridade piegas.

A palavra «estigma» (linha15) significa:
(A) forma ou modo.
(B) consequência ou resultado.
(C) causa ou explicação.
(D) marca ou sinal.

3. A oração «cuja neurastenia se retrata e ironiza num quadro real» (linhas 19-20) é uma oração:
(A) subordinada adverbial causal.
(B) subordinada adjetiva relativa.
(C) subordinada substantiva completiva.
(D) subordinada adverbial final.

4. O antecedente do pronome «ele» (linha 8) é:
(A) Silva Pinto.
(B) Livro.
(C) mercado.
(D) Cesário Verde.

5. Em «Entre os poetas sensíveis à estética de intenção objetiva, merece menção à parte José Joaquim Cesário Verde» (linhas 1-2), o constituinte «José Joaquim Cesário Verde» desempe¬nha a função sintética de:
(A) complemento direto.
(B) sujeito.
(C) predicativo do sujeito.
(D) predicado.

7. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da coluna B, de modo a obteres uma afirmação adequada ao sentido do texto.
Escreve, na folha de respostas, as letras e os números correspondentes. Utiliza cada letra e cada número apenas uma vez.

A
a) Com a locução «no entanto» (1.12),
b) Com a expressão entre parêntesis (II. 7-8)
c) Com a palavra «que» (l. 10),
d) Com o marcador discursivo «de facto» (1.19),
e) Com o emprego das aspas na frase parentética do final do texto (II. 23-24),

B
1) o enunciador acrescenta uma informação acessória.
2) o enunciador apresenta uma conclusão.
3) o enunciador marca a presença de versos citados da obra de Cesário Verde.
4) o enunciador faz uma síntese da informação dada anteriormente.
5) o enunciador introduz uma oração subordinada substantiva completiva.
6) o enunciador reforça o grau de verdade do enunciado.
7) o enunciador introduz uma relação contrastiva com algo escrito antes.
8) o enunciador restringe o âmbito em que a verdade do facto apresentado deve ser entendido.


III

Considerando a existência do projeto «Compro o que é nosso», para as empresas portuguesas que produzam bens alimentares destinados ao consumo humano, elabora um texto bem estruturado que tenha como objetivo convencer os consumidores a adquirirem apenas bens alimentares nacionais.
Para fundamentar o teu ponto de vista, recorre, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
Escreve um texto de duzentas a trezentas palavras.