2.3.12

Crónica das palavras


Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos fatos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o" não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea1 e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo2. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett3 não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho3 reproduz uma conversa com Herculano3. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou duzentas moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se-o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de 'modernidade', são, por exemplo: expetável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, fatível, plafonamento, exequível, checar, fraturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um reta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o fato de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o ato de escrever representava moral em ação. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Migueis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira. Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.

Baptista Bastos, Diário de Notícias, 4 de Fevereiro de 2009


Notas:
1. pedâneo: apressado, aligeirado.
2. paliativo: que serve para remediar ou esconder um problema em vez de o resolver.
3. Almeida Garrett, Ramalho Ortigão e Alexandre Herculano: escritores portugueses do século XIX.



I

1. Das afirmações seguintes, identifica, para cada ponto, aquela que completa a frase, de acordo com o sentido do texto.

1.1. Esta crónica é uma reflexão acerca

a. da forma como os políticos são vistos pela população.

b. da beleza das palavras bem escolhidas.

c. do facto de a língua portuguesa ser frequentemente maltratada.

d. das vantagens e desvantagens do novo Acordo Ortográfico.

1.2. Para combater os maus-tratos que a nossa língua sofre frequentemente, o cro­nista recomenda a leitura

a. dos escritores portugueses clássicos.

b. de discursos políticos.

c. da História de Portugal.

d. de livros estrangeiros em versão original.

1.3. A pobreza lexical que aflige o autor deve-se

a. à procura da simplicidade por parte de quem escreve.

b. às próprias limitações do vocabulário da língua portuguesa.

c. à ignorância, falta de cultura e falta de estudo de quem fala e escreve.

d. à falta de qualidade dos programas da nossa televisão.

1.4. Com esta crónica o escritor pretende, para além do mais,

a. reconhecer, perante os leitores, a sua teimosia.

b. homenagear alguns dos seus professores e vários grandes escritores portu­gueses do século XX.

c. mostrar aos seus leitores a importância da 'modernidade'.

d. chamar a atenção dos leitores para a necessidade de dobrar os filmes em por­tuguês.

II

2. Faz corresponder aos quatro elementos da coluna A quatro elementos da coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras.

A

1. No excerto "Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo", a locução sublinhada...

2. O advérbio "Pessoalmente"...

3. Com a frase entre parênteses, o autor do texto...

4. Na passagem "Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento...", o vocábulo assinalado...

B

a. ... introduz uma opinião do escritor.

b. ... anuncia uma ideia de causa,

c. ... é um advérbio com valor temporal.

d. ... marca uma adição.

e. ... é um marcador discursivo equivalente a "mas".

f. ... manifesta dúvida em relação ao que afir­mou imediatamente antes.

3. Relê o texto e responde às questões que se seguem.

3.1. Explica por que razão os políticos contribuem para que falte a honra às palavras.

3.2. Explica o sentido da frase "As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas.".

3.3. Justifica a escolha do título "Crónica das palavras".

4. Propõe um sinónimo para o vocábulo assinalado na passagem "Palavras velhas, travestidas de 'modernidade'”.

III

Resume o texto informativo a seguir transcrito, num texto que tenha entre cinquenta e setenta palavras.

O que é a língua portuguesa?

O português é a língua que os portugueses, os brasileiros, muitos africanos e alguns asiáticos aprendem no berço, reconhecem como património nacional e utilizam como instrumento de comunicação, quer dentro da sua comunidade, quer no relacionamento com as outras comunidades luso falantes.

Esta língua não dispõe de um território contínuo (mas de vastos territórios separados, em vários continentes) e não é privativa de uma comunidade (mas é sentida como sua, por igual, em comunidades distanciadas). Por isso, apresenta grande diversidade interna, consoante as regiões e os grupos que a usam. Mas, também por isso, é uma das principais línguas internacionais do mundo.

É possível ter perceções diferentes quanto à unidade ou diversidade internas do português, conforme a perspetiva do observador.

Quem se concentrar na língua dos escritores e da escola, colherá uma sensa­ção de unidade.

Quem comparar a língua falada de duas regiões (dialetos) ou grupos sociais (socioletos) não escapará a uma sensação de diversidade, até mesmo de divi­são.

in http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/historia-da-tingua-portuguesa.litml