28.3.12

Astúcia




Sentada por detrás das urzes, num oiteirinho, comadre raposa namorava os figos lampos que, de pança manteiguda e reboluda, pendiam duma figueira. Mas não longe andavam ceifeiros e receava que a vissem. Estava deitando cada olho aos figos, maior que os próprios figos, quando aconteceu passar por ali um potro baio, todo desenganado e farsola, com ar de quem fugiu à argola.
- Para onde vais, cavalinho? - perguntou ela na voz mais doce e fagueira.
- Para onde vou? Vou por esses mundos além. Ouvi dizer que amanhã me iam deitar a sela, fugi...
- É muito feio ser desobediente, cavalinho, muito feio. Mas já que o mal está feito, o anjo da guarda te acompanhe. Para que banda tomas, amigo?
- Para onde haja ervas que pastar.
- Conheço os prados como as minhas mãos: vem daí, que eu te ensino. Comeste tu hoje?
- Duas reles fêveras das ribanceiras. A caminho da almargem deixei-me ficar atrás até que pastor e manada me perderam de vista. Depois, trotei, trotei toda a santa manhã.
- Pois vem comigo, vou levar-te a um campo de relva onde poderás encher a pança.
- Abençoada sejas!
- O campo é além! Vês? Ao pé da figueira...? Mas como lá adiante andam os ceifeiros, que o Diabo leve, e podem desconfiar, é preciso que entres afoito, senhor de ti, como se fosse o amo que para lá te guiasse...
- Está dito, anda lá adiante.
- Não, tenho de marchar à tua ilharga por via de o sol não me bater nos olhos, que tenho catarata.
Assim fizeram. (...) E, a agatanhar para a figueira, disse ao poldro:
- Eu vou de mirante, cá para cima, não venham por lá aqueles homens ou teu amo. Pasta à vontadinha que, se houver perigo, eu boto alarme!
Embrenhou-se a zorra pela figueira e por lá andou tanto tempo que, à força de manducar, havendo subido lesta como um gato, desceu mais pesada que um pato.
-Vamos embora? - disse para o garraninho, que também já enchera o fole.
- Pois vamos na graça e boa paz.
Começaram a andar e, andando, devido à confiança que o cavalo inspirava pelos caminhos de Cristo, a raposa pôde filar uma cotovia, que do céu descia, e uma perdiz cantatriz. Mas lá porque estivesse farta, de braços cruzados, palonça, deixou partir um musaranho que se lhe viera meter nas pernas, responsando o imprudente:
-Vai, vai, desta estás perdoado!


Aquilino Ribeiro, Romance da Raposa,
Bertrand Ed.


Notas:
lampos: (que amadurecem muito cedo) antecipados; precoces; temporões.
manteiguda: reluzente (com aparência de manteiga escorrida).
reboluda: grossa e arredondada.
farsola: chalaceador; gracejador; zombeteiro.
fagueira: suave; afável; amável.
fêveras (ou febras ou fevras):
filamento vegetal; fibra (mas também carne sem osso nem gordura).
almargem: lameiro; pastagem; pasto; prado.
afoito: audaz; corajoso; ousado.
ilharga: flanco; lado.
agatanhar: (o m. q. gatinhar) trepar como um gato.
lesta: ágil; expedita; desembaraçada; lépida.
filar: capturar; ferrar; pegar
palonça: imbecil; papalva; tola.
musaranho: mamífero insectívoro conhecido por rato-musgo.
responsando: resmungando.




1. A palavra "comadre" é cognata de mãe e madrinha, por exemplo.

1.1. Indica outras palavras da mesma família.

2. A palavra "manada" é um substantivo colectivo. Faz corresponder a cada substan­tivo colectivo a designação dos elementos desse conjunto:

Cordilheira --> serras

enxame

matilha

alcateia

girândola

bando

caravana

rebanho

armada

vara

3. A personagem principal é designada, a primeira vez, por "raposa" e o cavalo por "potro". Indica outras designações presentes no texto para os dois animais.

Raposa:

Potro:

4. Esclarece o sentido das expressões:

"deitando cada olho aos figos"

"iam deitar a sela"

"vou de mirante"

5. Responde às questões, mostrando que compreendeste a engenhosa história.

5.1. Como se aproximou a raposa do cavalo e com que intenção?

5.2. Explica o motivo de a raposa chegar à figueira, indo à ilharga do cavalo.

5.3. Justifica o título do texto.

6. Logo no início do texto a expressão "manteiguda e rebolada" destaca-se pela rima, conferindo musicalidade à prosa. Transcreve outros pares de palavras com a mesma função.