24.2.12

Os Maias


As senhoras estavam falando da dor do doutor juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os três meses: era condenável a sua teima em não querer consultar médicos. Quanto mais que ele andava acabado, ressequido, amarelado — e a D. Augusta, a mulher, a nutrir à larga, a ganhar cores!... A viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Espanha vira um caso igual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; e ao princípio fora o contrário; até sobre isso se tinham feito uns versos...
– Humores – disse com melancolia o doutor delegado.
Depois falou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, coitadinho, na flor da idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de juízo! D. Ana Silveira não se esquecera, como todos os anos, de lhe acender uma lamparina por alma, e de lhe rezar três padre-nossos. A viscondessa pareceu toda aflita por se não ter lembrado... E ela que tinha o propósito feito!
– Pois estive para to mandar dizer! – exclamou D. Ana. – E as Brancos que tanto o agradecem, filha!
– Ainda está a tempo – observou o magistrado.
D. Eugénia deu uma malha indolente no crochet de que nunca se separava, e murmurou com um suspiro:
– Cada um tem os seus mortos.
E no silêncio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da viscondessa, que decerto se recordara do fidalgo de Urigo de lá Sierra, e murmurava:
– Cada um tem os seus mortos...
E o digno doutor delegado terminou por dizer igualmente, depois de passar refletidamente a mão pela calva:
– Cada um tem os seus mortos!
Uma sonolência ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as chamas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiozinho voltava com cautela e arte as estampas de «Os Costumes de Todos os Povos».
E na saleta de jogo, através do reposteiro aberto, sentia-se a voz já arrenegada do abade, rosnando com um rancor tranquilo: «Passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!»
Nesse momento Carlos arremetia pela sala dentro arrastando a sua noiva, a Teresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas vozes reanimou o canapé dormente.
Os noivos tinham chegado de uma pitoresca e perigosa viagem, e Carlos parecia descontente de sua mulher; comportara-se de uma maneira atroz; quando ele ia governando a mala-posta, ela quisera empoleirar-se ao pé dele na almofada… Ora senhoras não viajam na almofada.
– E ele atirou-me ao chão, titi!
– Não é verdade! Demais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos à estalagem… Ela quis-se deitar, e eu não quis… A gente, quando se apeia da viagem, a primeira coisa que faz é tratar do gado… E os cavalos vinham a escorrer…
A voz de D. Ana interrompeu, muito severa:
– Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavalaram bastante. Senta-te aí ao pé da senhora viscondessa, Teresa… Olha essa travessa do cabelo… Que despropósito!
Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, a brincar assim com o Carlinhos.
Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem propósito, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar ideias, suspeitas de ultrajes, que ele poderia fazer à menina.


I


1. Situe o excerto lido num dos momentos da vida da personagem Carlos, apoiando-se em elementos apresentados no texto.

2. Atente no ambiente sugerido no encontro de personagens.
2.1. Refira a oposição construída na descrição das personagens masculinas/femininas presentes no primeiro parágrafo.
2.2. Explique a utilização das exclamações no discurso do narrador presente no terceiro parágrafo.
2.3. Exemplifique o tipo de conversas assumido pelas personagens até «Passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!»
2.4. Demonstre, com três marcas linguísticas distintas, como se apresenta um ambiente propício ao imobilismo.

3. Preste atenção à seguinte fala: “Pois estive para to mandar dizer!”
3.1. Explicite os elementos que são substituídos pelos pronomes sublinhados.
3.2. Classifique o tipo de construção anafórica apresentada.

4. Releia o parágrafo:

– Cada um tem os seus mortos!
Uma sonolência ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as chamas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiozinho voltava com cautela e arte as estampas de «Os Costumes de Todos os Povos». E na saleta de jogo, através do reposteiro aberto, sentia-se a voz já arrenegada do abade, rosnando com um rancor tranquilo: «Passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!»

4.1. Explique o valor significativo do grupo verbal utilizado no primeiro período.
4.2. Avalie a adequação da referência a Eusebiozinho neste parágrafo.
4.3. Demonstre a expressividade de uma das figuras de estilo presentes nesse parágrafo.

5. Indique a funcionalidade da expressão destacada “Nesse momento Carlos arremetia pela sala …”
6. Aponte o tipo de sensações a que o narrador recorre para marcar a entrada das novas personagens.

7. Comente o valor significativo do conector destacado na seguinte fala de Carlos: “Ela quis-se deitar, e eu não quis…”

8. Considere a seguinte fala de D. Ana: “Senta-te aí ao pé da senhora viscondessa, Teresa…”
8.1. Relacione o tipo de frase apresentado com a caracterização do ambiente inicial do excerto.
8.2. Justifique a natureza deítica ou anafórica do advérbio apresentado.


II

Mais do que um episódio doméstico, o presente excerto reflete, simbolicamente, o estado de toda uma nação.
1. Escreva um texto argumentativo, em cerca de 150-200 palavras, no qual, relembrando a leitura e o estudo do contexto de produção de Os Maias, demonstre a veracidade da afirmação anteriormente feita.
Não se esqueça que um texto deve:
– ter introdução, desenvolvimento e conclusão;
– ser claro e articulado nas suas diferentes partes;
– evitar repetições desnecessárias.