12.2.12

Não gosto de motos


- Desculpa, Ricardo, mas, realmente, não gosto de motos. Depois do acidente do meu irmão, fiquei cheia de medo.
- Ora, que é que isso tem? Eu sei guiar! Não confias em mim?
- Desculpa...
- Garanto-te que nunca tive um acidente, Mafalda! Nem NUNCA vou ter. Eu sei guiar!
- Não vale a pena, Ricardo. A sério. Até amanhã.
Ela saiu. Ele ficou parado, colado ao portão, tão frio como o ferro das grades, vendo-a dirigir-se à paragem de autocarro. Quando olhou para trás, esperando secretamente que ninguém conhecido tivesse assistido àquela tampa que levara sem dó nem piedade, deu com o espertalhão, a menos de um metro de distância. Agora, se voltasse à carga, desfazia-o, isso era certo.
- Que é que foi? Nunca viste ou 'tás armado em mete nojo'? - perguntou-lhe, em tom de desafio.
- Já. Já vi esta cena numa novela foleira qualquer - respondeu o outro, igualmente mor-tinho por uma cena.
- Só que não me lembro já da cara do gajo, quando ela o deixou especado, feito estúpido...
Pronto. Os dados estavam lançados. O Ricardo voou para o outro, deitou-o ao chão num abrir e fechar de olhos e depositou-lhe uma murraça no queixo, para começo de festa. Pouco depois, juntou-se a maralha que ia almoçar a casa, atiçando o lume para aquecer a tarde.
-Vamos lá a parar com isso! - gritou o senhor Marques, aproximando-se do portão.
- Levantem-se, vá! Estou à espera.
Qual quê! Ainda estavam apenas nos exercícios de aquecimento. Ignoraram o porteiro e continuaram a pancadaria, soltando insultos directamente proporcionais às dores provocadas por cada um dos socos com que, alternadamente, iam presenteando o adversário.
Farto de gesticular, tentando separá-los, o porteiro exasperou-se e berrou:
- Já lá para cima comigo! Vamos ao director e é agora!
Só então pararam. Sacudiram-se, olharam-se como touros enraivecidos e seguiram o senhor Marques até ao gabinete da Direcção.

Maria Teresa Maia Gonzalez, Ricardo, o Radical, Ed. Difel


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Os medos da personagem feminina eram aceitáveis, porque:

  1. o Ricardo não sabia guiar
  2. estava traumatizada
  3. os autocarros não têm acidentes

1.2. As personagens masculinas jovens eram:

  1. conflituosas
  2. intolerantes
  3. imprevisíveis

2. A função exercida pelo senhor Marques está expressa no texto.

2.1. Indica-a.

2.2. Identifica as outras personagens, justificando a tua resposta.

3. Presta atenção às reacções do Ricardo e do rapaz com quem lutou. Comprova as seguintes afirmações, com transcrições do texto.

3.1. já se conheciam.

3.2. Ricardo estava incompatibilizado com o "espertalhão"

3.3. O "espertalhão" viu a "tampa" que Ricardo levou.

3.4. Provocaram-se mutuamente.

4. Relê o nono parágrafo e esclarece o sentido que atribuis:

4.1. à frase "Os dados estavam lançados."

4.2. à expressão "... atiçando o lume para aquecer a tarde'

5. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

A arrogância anda de mão dada com a agressividade.