1.2.12

Horas Mortas

1. Lê com atenção a quarta parte do poema “O sentimento dum ocidental”, de Cesário Verde.

IV
Horas Mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões, que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, ringem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta,
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Lisboa

Cesário Verde


2. Justifica o título atribuído pelo autor ao último momento de "O sentimento dum ocidental", tendo em conta a progressão cronológica que articula as suas diferentes secções.


3. Seleciona a única opção que contém as palavras/expressões que preenchem, sequencial­mente, os espaços de cada uma das frases, de modo a obteres afirmações corretas sobre o poema.

3.1. O sujeito poético em ______________ perspetiva a cidade de Lisboa de forma ______________.

a. deambulação... disfórica.

b. isolamento... eufórica.

c. deambulação... eufórica.

d. reclusão... disfórica.

3.2. "Horas mortas", a última parte de "O sentimento dum ocidental", materializa uma visão profundamente ______________, em que a ideia de ______________ se desenvolve num crescendo até ao final do poema.

a. otimista... abertura

b. otimista... clausura

c. pessimista... abertura

d. pessimista... clausura

Com base em AMARO, Ana Maria, "Introdução", in VERDE, Cesário, 2009. O Livro de Cesário Verde (uma seleção). Porto: Porto Editora

4. Ao longo da composição, o sujeito poético descreve o meio citadino que perceciona.

4.1. Resume-o em dois adjetivos, fundamentando a tua escolha com passagens do texto.

4.2. Aponta os efeitos que essa ambiência lhe provoca.


5. Envolto no ambiente urbano, o eu-narrador manifesta um desejo.

5.1. Transcreve um dos versos que o verbalizam.


6. Comenta a conotação simbólica da "flauta" (v. 12) no contexto em que ocorre.


7. Identifica a figura de estilo presente nas expressões "vale escuro das muralhas" (v. 26) e "massa irregular / De prédios sepulcrais" (w. 41-42) e explica o seu valor expressivo.


8. Destaca o efeito de sentido produzido pela anteposição dos adjetivos ao nome que carac­terizam nos versos "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente, os cães parecem lobos." (w. 35-36)


9. Assinala como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações seguintes:

a. O grupo preposicional presente na passagem "Vêm lágrimas de luz" (v.3) possui um valor restritivo.

b. O segmento textual "Enleva-me a quimera azul de transmigrar." (v. 4) constitui um ato ilocutório assertivo.

c. O constituinte "as fechaduras" no verso "Colocam-se taipais, rangem as fechaduras" (v. 7) desempenha a função sintética de complemento direto.

d. Todos os adjetivos usados na frase "Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris duma longínqua flauta." (w. 11-12) são usados como modificadores do nome apositivos.

e. As formas verbais "espantam-me" (v. 8) e "quero" (1.19) são simultaneamente referências deíticas pessoais e temporais.

f. Na frase "Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas" (v. 27) o sujeito é nulo subentendido.

g. O conector "todavia" (v.33) introduz uma ligação consecutiva.

h. A oração "que revistam as escadas" (v. 37) é subordinada adjetiva relativa restritiva.

i. A utilização da conjunção "e" no verso "Caminham de lanterna e servem de chaveiros" (v.38) concretiza um mecanismo de coesão frásica.

j. O antecedente do determinante possessivo "seus" (v. 39) é "imorais" (v. 39).


9.1. Corrige as afirmações falsas.