11.2.12

Hades


- São os anos do Rodrigo e a gente faz o que ele quiser. Foi o que eu disse e é o que se faz. Agora calas-te e andas para a frente. E cara alegre e não arrastas os pés.
- Porque é que hadem estar sempre a discutir, mesmo no dia dos meus anos?
- Olha-me aquele - disse o pai - parece o Guilherme nosso vizinho. Só lhe falta o boné.
Todos se riram a olhar para o peixe vermelho, até o Rolando, embora contrariado.
- Fechastes o carro? - perguntou a mãe.
- Tudo sobre controle - disse o pai.
- Não te debruces, Rodrigo Tiago, parece que fazes de prepósito!
Os peixes rebolavam pela água esverdeada. Estavam muito feitos a serem visitados. O Rodrigo queria perguntar ao pai como é que eles conseguiam ver, só com um olho de cada lado da cabeça. Mas teve medo que ele empreendesse uma explicação demorada e agora queria mais que tudo despachar-se. E teve sorte, porque não havia muita gente a querer entrar no Aquário Vasco da Gama.
- Tens dinheiro destrocado? - perguntou a mãe. E o pai tirou da carteira uma nota de mil e deu-a ao guarda. O Rolando ficou de costas, distraído a olhar para a montra das conchas envernizadas e de cavalos-marinhos para sempre empertiga¬dos. Entraram pelas anémonas logo a seguir.
- Isto é que era uma coisa boa lá para casa - disse o pai. - Esta luz que só acende enquanto a gente carrega no botão. Era um grande poupar de energia -Depois leu: - Anemonia Sulcata, nome vulgar, anémona.
- A cabeleira delas até parece a do Rolando - disse a mãe a querer brincar. E logo, para o Rodrigo: - Não lambuzes o vidro, pá, que é proibido. Ainda vem aí o homem e nos põe a todos fora.
- Ih, mãe, olha-me esta lula! - gritou o Rodrigo. - Olha-me esta lula!
Ficaram todos pasmados com a lula gigante.
- Isto dava uma caldeirada para uma casa de família - disse o pai. E leu depois, no cartaz iluminado: - Oito metros e vinte e duzentos e sete quilos! Os olhos têm vinte e cinco centímetros de diâmetro...
- A oitocentos paus o quilo - calculou a mãe - vê lá tu quanto é que aí não está de lulas.
- Assim congelada é capaz de ser mais barato - disse o pai.
Foram pelo corredor conscienciosos, acendendo luzes, espreitando anémonas e cavalos-marinhos, juntando as cabeças sobre as janelinhas redondas dos aquários.
O Rolando acompanhava à distância, como se não lhes pertencesse, de mãos nos bolsos, deitando olhares descomprometidos aos espécimes quando não podia mesmo deixar de ser, absorto num grave problema íntimo que nenhuma visita, nenhuma festa, nenhuma palavra podiam resolver. Depois começavam os peixes.
- Olha-me aquele todo às pintinhas. Ó pai, podemos ter um?
- Isto não são uns peixes quaisquer, não se arranjam assim do pé para a mão -explicou o pai. - Se calhar há para aí um ou dois no mundo inteiro.
- São muito feios os peixes - disse a mãe. - Têm um ar muito estúpido.
- Há quem diga que vimos deles, sabias? - disse o pai ao Rodrigo.
- Só se fores tu, eu cá não venho com certeza. Uma vez a minha madrinha até me quis dar um peixinho vermelho, mas aquilo fazia-me espécie, a criatura às voltas no frasco, deitei-o pela pia abaixo.
- Deitastes fora o peixe? - perguntou o pai, incrédulo.
- Era pequena - disse a mãe. - Coisas da minha madrinha.
Na sala das otárias, a mãe deixou-se embevecer pela decoração marinha de conchas e barrocos búzios.
- Isto está um luxo, já viste? Está lindo. E, para o Rolando, que chegava: - Hades ficar sempre para trás e andares de trombas. Nem nos anos do teu irmão nos fazes o favor de estares contente, poças!
(...)
- Ó pai, como é que se dá de comer às enguias elétricas? - perguntou o Rodrigo. Mas o pai ainda estava com a memória noutro lado, enquanto lia no cartaz:
- Descargas de duzentos a trezentos volts, é o mesmo que pôr a mão na tomada.
- Isto está visto - disse a mãe, e começou a descer para o tanque das tartarugas, (...).
- Estou farta de lê dizer para não pôr tanta porcaria nos bolsos, que me deforma as Levis - queixou-se ela, a ninguém em especial - depois é, ó mãe quero uns Nike, ó mãe quero umas Lois, e rebenta com tudo. Levanta os pés, Rolando Bruno!
Portanto, a mãe estava a ficar com fome. Ainda bem que tinha chegado a uma sala cheia de peixes comestíveis.
- Ele é bacalhau, ele é garoupa, cherne, badejo! Anchovas, pargo, polvo! Só faltam as batatas e os grelos! - disse o pai. Riram-se.
- Não se percebe nada! - disse a mãe. - Mas que vigarice, desde quando é que bacalhau é peixe de aquário? Se tivéssemos azeite, almoçava-se já aqui!
- Ih! - gritou o Rodrigo - olha-me só a tromba daquele!
Mas os pais tinham parado diante de um cardume de peixinhos vermelhos e a mãe encostara a ponta do dedo indicador ao vidro. Ficara sonhadora, depois o pai afastara-se e premira o botão da luz noutro aquário.
- Apogon Imberbis - leu em voz alta, para o resto dos visitantes - "a fêmea expele os ovos (envoltos numa substância gelatinosa que os mantém unidos num aglomerado), que vão ser incubados na boca do macho; este jejua até ao nascimento das larvas, expelindo-as então"...
- Que porcaria! - disse a mãe. - Lembram-se de cada uma! Poderia-se lá pensar.
A mãe também estava já farta de peixes. O pai demorava-se a ler as legendas, o Rolando não conseguia disfarçar a impaciência, batia com as biqueiras dos ténis no chão, ora uma, ora outra e assobiava entre dentes.
- Não sei porquê que hades estar sempre a fazer isso - disse a mãe ao Rolando. - Estragas os sapatos todos.
- Não é ades, é hás-de - disse, por fim, o Rolando.
Os outros três estacaram, ficaram parados a olhá-lo. O Rolando mudou o peso do corpo para a outra perna, cruzou os braços sobre o peito e repetiu, numa ameaça:
- Não é hades, é hás-de.

Luísa Costa Gomes, "Hades", in Contos Outra Vez,
Cotovia, 1997 (texto adaptado e com supressões)



1. Corrige os erros que encontraste no texto.

2. O questionário que se segue fornece-te, para cada questão, duas hipóteses de resposta. Assinala a opção correta, de acordo com o sentido do texto.

2.1. A frase "[Os peixes] Estavam muito feitos a serem visitados." significa que:

a. [os peixes] estavam habituados aos visitantes.

b. [os peixes] estavam fartos de visitas.

2.2. A expressão usada pela mãe "(...) fazia-me espécie, (..J" significa que:

a. ela achava que aquele espécime era pouco vulgar.

b. ter um peixe às voltas num frasco causava-lhe estranheza.

2.3. Quando o narrador declara que o Rolando, estava "(...) absorto num grave pro­blema íntimo (...)", pretende evidenciar que:

a. o Rolando estava empenhado em compreender tudo o que via.

b. o Rolando estava tão preocupado com uma questão pessoal que não prestava atenção ao que o rodeava.

2.4. Através de diversas atitudes de Rolando, podemos deduzir que esta personagem:

a. participou de boa vontade nesta comemoração do aniversário do irmão.

b. não se sente bem integrada na sua família.

3. Carateriza os membros desta família.

4. Explica por que razão, em dois momentos da história, a mãe se dirige aos filhos tra­tando-os pelos dois nomes próprios.

5. Justifica a utilização do marcador discursivo com valor conclusivo "Portanto a mãe estava a ficar com fome" no início do parágrafo.