9.2.12

Cinismos



Cinismos

Eu hei de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há de chorar, chorar enternecida!
E eu hei de, então, soltar uma risada.

Cesário Verde, in O Livro de Cesárío Verde,
Lisboa, Edições Ática, 1992.



I

1. Expõe o assunto desenvolvido no poema.
2. Explicita o valor semântico da forma «hei de» nos complexos verbais em que ocorre.
3. Refere o tipo de comportamento que o sujeito poético tem intenção de manter com a mulher amada.
4. Mostra as consequências que o sujeito poético pretende obter com o comportamento progra¬mado.
5. O último verso do poema parece algo inesperado. Explica o seu sentido, articulando-o com o título.


II

1. Classifica a oração subordinada da frase complexa "Hei de olhá-la dum modo tão nervoso, que ela há de enfim sentir-se constrangida".
2. Explicita a função da palavra «enfim» (verso 13).
3. Indica a classe e a subclasse das palavras sublinhadas na expressão «um velho filósofo lendário».
4. Transforma a expressão «hei de lhe falar» de modo a obteres uma forma verbal simples mantendo o tempo e o modo verbal.


III

Elabora uma reflexão em que, partindo da leitura da poesia de Cesário Verde e baseando-te no poema «Noites gélidas», comentes a afirmação que a seguir se transcreve. Escreve um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras.

«(...) a mulher em Cesário (...) é vista, na maturidade, normalmente, a passar... Assim ela passa, va-gueia, é entrevista no luxo duma carruagem veloz. Isso lhe permite também quase sempre avaliá-la na plástica dos seus movimentos, na imponência que pode seduzi-lo (...) no luxo de sedas e veludos que a distinguem, na soberbia do carro que a transporta. Cesário, na sua relação com a mulher, a situação privilegiada que adota é a de segui-la. Assim ele está perto e está longe, se sente próximo e à distância em que pode contemplá-la.»

Vergílio Ferreira, «Relendo Cesário», Colóquio\Letras,
n.° 31, maio de 1976, pp, 51-52.


Noites gélidas Merina.

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

Cesário Verde, in O Livro de Casario Verde,
Lisboa, Edições Ática, 1992.