1.2.12

Anástrofe e incerteza em Tony Carreira

Quem é, hoje, o mais conhecido e apreciado poeta português?
A Academia1 divide-se, o que demonstra, uma vez mais, que a Academia não percebe nada do as-sunto. Inúmeros portugueses sabem de cor os seus versos - e, no entanto, a universidade despreza-o, a crítica ignora-o, as seletas barram-lhe a entrada. Valha-nos o povo, especialmente aquela parcela do povo que é constituída por senhoras maiores de 50 anos, que o venera. O mais famoso poeta português da atualidade é, sem dúvida nenhuma, Tony Carreira. Fazia falta um estudo sério sobre a sua obra. Um pouco vergado sob o peso de ser sempre pioneiro a fazer o que faz falta, aqui o apresento.
O primeiro aspeto que o leitor de Tony Carreira deverá ter em conta é o seu universo vocabular. Carreira definiu um vocabulário restrito, não porque queira, como Eugénio de Andrade, estabelecer um conjunto de vocábulos essenciais e, a partir desse núcleo, obter uma expressividade reforçada pelos contextos inesperados em que eles surgem, mas, ao que tudo indica, porque conhece poucas palavras. E a maior parte das que conhece não tem muitas sílabas. Tony Carreira não perde tempo a procurar o adjetivo certo. Na dúvida, é tudo "lindo". É o caso da vida, no poema "Não chores mais" ("Não chores mais / não nunca mais / que a vida é tão linda"), da mãe, em "Mãe querida" ("Hoje velhinha estás, querida mãezinha / Mas para mim sempre serás tu a mais linda"), de uma casa, em "Coração perdido" ("Hoje vives numa linda casa"), ou de várias coisas, no poema "Ai que saudades" (nele, o herói parte de "uma casinha branca tão linda", recorda "esse cantinho doce e tão lindo" e anseia pelo regresso "à ilha linda (...) que o viu nascer", que é, evidentemente, a "linda Madeira")
Enquanto poeta, Tony Carreira está preocupado com dois problemas principais: a só quantidade de frases que, não terminando numa palavra acabada em "ar", não podem rimar com outras frases que terminem numa palavra acabada em "ar" (e por isso recorre com frequência a belas anástrofes, como em "Morena bonita": "Um dia destes eu vou com ela falar / Vou fazer tudo p'ra seu amor conquistar"); e as idiossincrasias do amor, e as perplexidades que elas causam. Neste capítulo, são exemplares os poemas "Qualquer dia posso-me cansar" ("E quando as coisas correm mal porque é que tu me ofendes / Se ao fim da noite queres fazer as pazes na cama?") e "Cai nos meus braços, Maria" ("Tu que estás aí dançando / Faz aquilo que eu desejo / Vem para mini bamboleando / Sim, tropeça nos meus beijos (...) Vem nesse bamboleado / Escorrega nos meus lábios"), sendo que este último parece alertar para o caráter traiçoeiro dos beijos, que ora fazem tropeçar, ora saem de lábios escorregadios. A registar por quem, desejando entregar-se aos prazeres do amor, não queira, ainda assim, partir uma perna.
Fica o incentivo para uma leitura atenta da poesia de Tony Carreira - que, por ser inclassificável, não me sinto capaz de adjetivar. A não ser, talvez, com a expressão "muito linda".

Ricardo Araújo Pereira, Boca do Inferno,
15.ª ed., Tinta da China, 2008 (texto com supressões)



Notas:
1. Academia: designação tradicionalmente dada à escola de Filosofia em que Platão ensinava, em Atenas, junto a um jardim dedicado a Academo, personagem mitológica. A palavra 'Academia' é também utilizada para designar sociedades de escritores, artistas ou cientistas que, por norma, se pronunciam sobre assuntos da sua especialidade.
2. Ricardo Araújo Pereira é um conhecido humorista e um cronista irreverente, cujos textos são profundamente críticos.
3. A anástrofe é um recurso estilístico que consiste na alteração da ordem direta das palavras dentro de um constituinte da frase.



I

1. Na opinião de Ricardo Araújo Pereira, qual é a resposta à pergunta com que o texto começa?

2. Como justifica ele a afirmação: " a Academia não percebe nada do assunto. "

3. "Fazia falta um estudo sério sobre a sua obra. Um pouco vergado sob o peso de ser sempre pioneiro a fazer o que faz falta, aqui o apresento."

3.1. Que expetativa criam no leitor estas frases do texto em relação ao que vai ser dito sobre a poe­sia de Tony Carreira?

3.2. Explica por que razão Ricardo Araújo Pereira invoca o exemplo de Eugénio de Andrade.

3.3. Nas tuas próprias palavras, diz quais são as duas grandes preocupações do 'poeta' Tony Carreira.

4. Nesta crónica, o autor dá a sua opinião acerca da poe­sia de Tony Carreira.

4.1. Identifica dois momentos em que a ironia* seja mais evidente.

4.2. Destaca a intenção de Ricardo Araújo Pereira ao escolher a expressão "muito linda" para classificar a 'poesia' do cantor.

Mãe, mar, amigo,

corpo, rumor." *

"O silêncio e o branco são,

talvez, as palavras maiores

* Resposta de Eugénio de Andrade à pergunta "Quais são as palavras, cinco palavras, que mais amaste?"

II

1. Atenta no seguinte excerto do texto:

"Inúmeros portugueses sabem de cor os seus versos - e, no entanto, a universidade despreza-o, a crítica ignora-o, as seletas barram-lhe a entrada. Valha-nos o povo, especialmente aquela parcela do povo que é constituída por senhoras maiores de 50 anos, que o venera. O mais famoso poeta português da atualidade é, sem dúvida nenhuma, Tony Carreira."

1.1. Reescreve-o, substituindo todos os vocábulos e expressões destacadas por outras equivalentes neste contexto.

2. Para ilustrar a sua afirmação de que Tony Carreira usa um vocabulário restrito nas letras das suas canções, Ricardo Araújo Pereira dá os seguintes exemplos:

a. "Não chores mais /não nunca mais /que a vida é tão linda"

b. "Hoje velhinha estás, querida mãezinha/Mas para mim sempre serás tu a mais linda"

c. "uma casinha branca tão linda"

d. "esse cantinho doce e tão lindo"

e. "à ilha linda (...) que o viu nascer"

f. "linda Madeira"

2.1. Substitui, em todas as frases, o adjetivo "lindo", nas suas várias formas, por sinónimos, sem nunca te repetires.

3. Nos versos "Um dia destes eu vou com ela falar / Vou fazer tudo p'ra seu amor con­quistar", Tony Carreira recorre à anástrofe.

3.1. Reescreve as frases pela ordem direta.

4. Lê as frases que se seguem.

a. Inúmeros portugueses sabem de cor os versos de Tony Carreira.

b. A minha cor preferida é o azul.

4.1. As palavras destacadas estabelecem entre si uma relação de:

a. sinonímia.

b. homografia.

c. hiperonímia.

5. Atenta nas seguintes frases:

a. Tony Carreira é um cantor pimba.

b. Como não estava a prestar atenção, tropeçou e pimba!

5.1. Diz a que classes pertencem as palavras destacadas nas duas frases e explicita os respetivos sentidos.

6. Considera os seguintes pares de vocábulos:

a. seleta [nome]/ seleta [adjetivo]

b. atenta [verbo] / atenta [adjetivo]

6.1. Utiliza-os em frases simples em que cada um deles respeite a classe de palavras indicada.

7. "Carreira definiu um vocabulário restrito, (...) porque conhece poucas palavras. E a maior parte das que conhece não tem muitas sílabas." (II. 17-21)

7.1. Indica o valor semântico dos conetores assinalados.

7.2. Analisa agora a primeira frase do exercício 7., identificando:

as duas orações que a compõem;

o sujeito e o predicado de cada uma delas;

a(s) função(ões) sintática(s) dos elementos selecionados pelos verbos.

8. Encontra, na coluna da direita, a classe e subclasse de palavras a que pertencem os vocábulos assinalados na da esquerda.

Vocábulos

Classes e subclasses

1. "... sob o peso..."

2. "... o seu universo vocabular."

3. "... um vocabulário restrito..."

4. "... com dois problemas..."

5."... de ser sempre pioneiro..."

6. ''O primeiro aspeto..."

7. "Quem é, hoje, ...?"

8. "O primeiro aspeto que..."

9. "... aqui o apresento."

10. "Valha-nos o povo..."

11. "... porque conhece poucas palavras."

12. "... Tony Carreira está preocupado..."

a. Pronome interrogativo

b. Advérbio - com valor locativo

c. Adjetivo numeral

d. Conjunção subordinativa causal

e. Nome comum contável coletivo

f. Pronome relativo g. Preposição

h. Verbo copulativo

i. Adjetivo qualificativo

j. Advérbio - com valor temporal

I. Determinante possessivo

m. Quantificador numeral

9. Lê, agora, um parágrafo de uma outra crónica de Ricardo Araújo Pereira - "Triste sina" - ao qual retirámos toda a pontuação.

Esta semana fui comprar cuecas peço porém ao leitor que contenha a emoção bem sei que num país de cronistas insossos haver um que enceta uma crónica despertando imediatamente no leitor a inquietação que só a grande literatura consegue provocar comove toda a gente sofisticada com­preendo que o leitor deseje largar imediatamente a revista percebo a urgên­cia de ir verter a frase que ali está para latim e tatuá-la nas costas mas aquelas cinco palavras que de resto compõem um estupendo decassílabo não são apenas um achado estilístico são também a mais pura verdade é por isso que chamo a atenção para o que se segue (...)

Ricardo Araújo Pereira, Boca do Inferno, 15.ª ed., Tinta da China, 2008 (texto adaptado)


9.1. Pontua o excerto corretamente.

9.2. Lê-o em voz alta, respeitando a expressividade da pontuação.