28.2.12

Gerou-se a floresta




O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que páraquedista!
(...) Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.
Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares. (...) E deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. Ninguém a via, nem ela via a mais pequena nesga do mundo. (...)
A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocais da sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser. Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la.

Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães, Bertrand Ed



Notas:
pincha-no-crivo: salta-pocinhas (indivíduo que anda com passo miúdo e aos saltinhos).
devasso: desregrado;
dissoluto; libertino.
estarim: calabouço
decúbito: posição de quem está deitado.
volveu: retorquiu
fosca: escura; sem brilho
chaparro: sobreiro
retinto: carregado
fulguravam: cintilavam; luziam.
zenital: parte do toro virada para a esfera celeste
toro: cepo; pedaço de tronco
ricochete: retrocesso
argalhos: gravetos, fragmentos de ramos de árvores
pelouro: bala
cascos de rolha: lugar distante e desconhecido
toural: lugar onde o coelho-bravo
costuma estercar belisco: beliscão; beliscadura;
apertão da pele.
flanco: ilharga; lado
vagem: invólucro (pericarpo) de algumas leguminosas como o feijoeiro
incomburente: que não arde.



1. No primeiro parágrafo, o vento é um dos agentes da acção, um sujeito que age.

1.1. Faz o levantamento das suas acções, transcrevendo as respectivas formas ver­bais.

1.2. Procede da mesma forma em relação à outra personagem.

1.3. Elabora uma frase para cada conjunto de formas verbais, de modo a resumi­res o parágrafo.

O vento

O pinhão

2. A parte final do penúltimo parágrafo celebra o início da vida de uma árvore. Para realçar o esplendor da vida, o narrador utiliza expressões bem sugestivas.

2.1. Transcreve algumas dessas expressões.

3. Cada uma das cinco frases seguintes sintetiza um parágrafo do texto. Reescreve-as de forma ordenada:

As aves, assim como o vento, são agentes que intervêm no processo de multipli­cação das árvores.

Os pinhões, que não são alimento para as aves e conseguem aconchego na terra, têm probabilidades de virem a germinar

Muitos peniscos e bolotas geraram a floresta.

O pinhão estava bem entalado, mas foi empurrado pela asa para cair na terra.

São muitas as peripécias pelas quais pode passar uma semente, até começar a sentir o processo de germinação.