3.1.12

Pen clube

A primeira vítima foi o Arnaldo, que na Primavera de 1981 costumava aparecer na tasca do Cardoso com um sorriso de satisfação mal contida. Uma noite, encostámo-lo à parede e ele lá se descoseu. Andava a escrever um romance gigantesco, mais de 800 páginas, uma coisa nunca vista, "melhor do que o Mau Tempo no Canal1 e o Sinais de Fogo2 juntos". E acrescentava: "O que Nemésio fez pelo Faial e Sena pela Figueira da Foz, vou eu fazer pela Cova da Piedade." Infelizmente, nunca chegámos a ler o tão promissor Margem Sul. No dia em que ele se deslocou a Lisboa para entregar o manuscrito, impecavelmente datilografado, aconteceu aquilo. À entrada do cacilheiro, pousou as folhas para apertar os atacadores e uma súbita rajada de vento destruiu-lhe a vida literária. Ainda hoje os olhos de Arnaldo se embaciam, quando se lembra das páginas a esvoaçar sobre o Tejo, como gaivotas aturdidas.
A segunda vítima foi a Madalena, já no tempo das disquetes. Depois de um Verão fechada em casa, conseguiu finalmente terminar o volumoso ensaio sobre Pessoa e a "pré-pós-modernidade", arrojadíssima teoria que nunca chegou a explicar muito bem, mas com a qual tencionava agitar os meios académicos e provocar taquicardias nos pessoanos mais ortodoxos3. Quando um professor da Faculdade de Letras mostrou interesse na obra, ela não se deu ao trabalho de imprimir as 458 páginas. Apanhou o metro para a Cidade Universitária e só depois de entregar o pequeno objeto azul, em mão, é que descobriu o significado do verbo desmagnetizar.
A terceira vítima foi o Rafael. No seu portátil, tinha instalado um software especialmente concebido para a escrita de poemas visuais. Ele dizia que a sua linguagem estava a meio caminho entre Ana Hatherly e Ernesto Melo e Castro4, mas não pudemos confirmar, porque a muito aguardada Lira Digital desapareceu para sempre na terra dos documentos informáticos irrecuperáveis, quando o disco rígido deu o berro.
De então para cá houve mais umas 15 vítimas. Eu fui das últimas e poupo-vos à descrição da minha miséria. Posso ser "info-excluído"5, mas tenho vergonha na cara. O que interessa é que decidimos formar - o Arnaldo, a Madalena, o Rafael e os outros - uma espécie de confraria para exorcizar e precaver tragédias pessoais deste jaez6. Todas as quintas-feiras, marcamos mesa num restaurante da moda (o Arnaldo às vezes tem saudades da tasca do Cardoso, mas com o tempo, já se sabe, aburguesamo-nos). Então, no fim do jantar, erguemos as nossas pen drives de oito gigas como se fossem espadas de mosqueteiros. Um de nós pergunta: "E do que é que não nos podemos esquecer?" Resposta em coro: "Do backup, do backup, do backup."
Tendo sido eleito porta-voz do grupo, queria aproveitar esta crónica para fazer um convite público ao conhecido escritor de bestsellers a quem roubaram recentemente um computador com dois livros dentro. Nós já passámos por isso, Miguel7. Sabemos o que custa. Por isso, se aceitar ser nosso membro honorário, recebê-lo-emos de braços abertos. E teremos uma pen para lhe oferecer, com o seu nome gravado e tudo.

José Mário Silva, in LER, Dezembro de 2008


Notas:
1. Romance de Vitorino Nemésio, escritor açoriano.
2. Romance de Jorge de Sena.
3. ortodoxo: rigoroso, convito.
4. Poetas portugueses que se dedicaram à poesia experimental.
5. info-excluído: aquele que não conhece ou não tem acesso às tecnologias da informação.
6. jaez: tipo, género.
7. Referência a Miguel Sousa Tavares.


1. Das afirmações seguintes, identifica, para cada ponto, aquela que completa a frase, de acordo com o sentido do texto.

1.1. Esta crónica relata:

a. o nascimento de uma grande amizade.

b. a forma como um conjunto de pessoas se uniu em torno de um objetivo comum.

c. o encontro de três amigos num restaurante de Lisboa.

1.2. O que há de comum entre as quatro personagens - Arnaldo, Madalena, Rafael e o autor - é o facto de:

a. terem sido vítimas da info-exclusão.

b. se terem conhecido quando andavam na Faculdade.

c. partilharem o mesmo gosto pela poesia experimental.

1.3. Madalena descobriu o sentido do verbo "desmagnetizar" quando:

a. perdeu a disquete onde tinha gravado o seu trabalho.

b. percebeu que a disquete onde tinha gravado o seu trabalho estava vazia.

c. deixou cair "o pequeno objeto azul" ao rio.

1.4. Margem Sul e Lira Digital são os títulos de:

a. duas obras que nunca chegaram a ser publicadas.

b. dois romances de dois conhecidos escritores portugueses.

c. dois poemas de Fernando Pessoa.

1.5. O autor do texto não relata em pormenor o que aconteceu consigo porque:

a. não quer ser considerado mais um info-excluido.

b. o seu caso é muito mais complicado do que os três anteriores.

c. se envergonha de não ter evitado aquilo que lhe aconteceu.

2. Faz corresponder a cada um dos elementos da coluna A quatro elementos da coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras.

A

1. O advérbio "Infelizmente"

2. No excerto "aconteceu aquilo", o pronome destacado

3. Com o recurso aos parênteses, o autor do texto

4. Na passagem "queria aproveitar esta crónica", o imperfeito do indicativo

B

a. introduz uma reflexão pessoal.

b. indicia uma sequência textual descritiva.

c. é um elemento modalizador do discurso.

d. manifesta uma opinião do autor acerca do con­teúdo da frase que se segue.

e. é um termo catafórico.

f. estabelece uma relação com o parágrafo ante­rior.

3. Relê o texto e responde às questões que se seguem.

3.1. Assinala três palavras/expressões do campo lexical de "informática".

3.2. Aponta duas comparações utilizadas no texto.

3.3. Justifica a escolha do título "Pen clube".

3.4. Identifica o acontecimento que esteve na origem desta crónica.

4. Nos quatros últimos períodos do texto, o cronista dirige-se diretamente a uma segun­da pessoa.

4.1. Identifica o vocativo utilizado.

4.2. Passa essas quatro frases para o discurso indireto, fazendo as alterações neces­sárias.