28.1.12

Obrigada!


As surpresas não acabavam para a Sementinha. (...)
Dando mais atenção às suas raízes, a Sementinha reparou que nelas tinham nascido umas coifas para lhes protegerem as pontas, não as quebrassem os obstáculos da terra, ao mesmo tempo que lhes orientavam o cresci¬mento. Isto envaideceu-a. Sentiu-se munida de uma bússola e de um escudo de guerreiro. O pior é que notou que nas hastezinhas das raízes lhe nasciam pelos.
"Querem ver que vou ter barba? Que coisa feia!... Uma menina de barba!..."
E a Sementinha choramingou a sua triste sorte. A Terra sorriu daquele desabafo e não se deu ao cuidado de a sossegar.
Uma das raízes é que lhe falou:
- Ouve lá! Que disparate é esse de estares aí com lamúrias? Estamos nós aqui a trabalhar... (...)
Entretidas nesta conversa, nem reparavam que o Sol se apagara e que nuvens negras carregavam o céu. Já os trovões ameaçadores ralhavam ao longe, chegando-se pouco a pouco, e depois tão apressadamente, que a chuva desabou, cerrada e áspera, tocada por um vento agreste.
A primeira sensação foi de prazer - o prazer de quem toma um banho.
Mas a chuvada prosseguiu durante horas, até que a água começou a entrar aos jorros pelas fendas da terra, e em tal abundância que o ar foi desaparecendo. (...)
Sempre ameaçador, o céu parecia indiferente à angústia dos campos e dos homens. (...)
As folhas verdes não podiam ver a batalha aguerrida que se travava no céu entre as nuvens negras e o Sol. E por isso se abandonavam, sem esperança, àquela terrível morte por asfixia.
Embora fraco! o Sol não deixava de apontar as suas lanças de fogo ao corpo espesso das nuvens, querendo rasgá-las para ir em socorro da Sementinha e dos seus companheiros. Num momento parecia-lhe que a luta iria acabar a seu favor; mas logo uma nova massa de nuvens o enrolava e envolvia, tornando inútil o seu esforço. (...)
Num adeus exausto, as folhas verdes sussurraram-lhe: "Obrigada."
Quando as viu assim, o Sol arranjou novas forças e luziu mais, atirando calor sobre a terra, empapada de chuva. As folhas tentaram respirar, mas a seiva já mal corria no seu corpo.
Foi nesse instante que o Vento Bonançoso veio também em auxílio da seara para lhe enxugar as folhas, levando consigo o hálito das suas milhentas bocas.
Numa ressurreição, as hastes delgadas engrossaram mais, sempre protegidas pelas bainhas das folhas, que as defendiam das geadas e dos insectos.
Dias depois, como para festejar o esplendor da seara revivida, veio um rancho de raparigas fazer a monda, arrancando as ervas ruins que roubavam ao trigo a seiva da terra.


Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha, Ed. Caminho


Notas:
coifas: protecção das raízes.
munida: provida.
lamúrias: lamentações.
jorros: esguichos.
asfixia: sufocação ou sufoco.




1. Aponta a razão pela qual o título se encontra no género feminino.

2. A acção do texto centra-se num conflito iniciado por um fenómeno meteorológico.

2.1. Indica esse fenómeno.

2.2. Detecta e transcreve a frase do texto que se lhe refere.

2.3. Da frase transcrita, indica a oração cuja forma verbal expressa uma personifica­ção.

3. O décimo primeiro parágrafo termina com a expressão "morte por asfixia".

3.1. Indica a realidade anterior que já indiciava a possibilidade de as folhas pode rem morrer asfixiadas.

4. Atenta na série de palavras que traduzem vivências interiores. Encontra para cada palavra o elemento do texto adequado. Desta forma, encontrarás as principais personagens que intervieram na acção.