17.1.12

Cesário Verde


Quis dizer o mais claro e o mais corrente
Em fala chã e em lúcida esquadria
Ser e dizer na justa luz do dia
Falar claro falar limpo falar rente

Porém nas roucas ruas da cidade
A nítida pupila se alucina
Cães se miram no vidro de retina
E ele vai naufragando como um barco

Amou vinhas e searas e campinas
Horizontes honestos e lavados
Mas bebeu a cidade a longos tragos
Deambulou por praças por esquinas

Fugiu da peste e da melancolia
Livre se quis e não servo dos fados
Diurno se quis – porém a luzidia
Noite assombrou os olhos dilatados

Reflectindo o tremor da luz nas margens
Entre ruelas vê-se ao fundo o rio
Ele o viu com seus olhos de navio
Atentos à surpresa das imagens

Sophia de Mello Breyner Andresen,
“Ilhas”, in Obra Poética III, Caminho


I

1. Indique uma possível razão para a escolha do título deste poema.

2. Na primeira estrofe, o sujeito poético afirma o que Cesário “Quis dizer” (v. 1) e como o tentou dizer.
2.1. Retire da estrofe a(s) expressão(ões) que explica(m) o que ele quis dizer.
2.2. Explique, por palavras suas, o sentido da(s) expressão(ões) que seleccionou.
2.3. Transcreva os termos que referem a forma como apresentou as suas ideias, explicando o seu significado.

3. Releia a terceira estrofe.
3.1. Assinale a conjunção aí presente e indique o seu valor.
3.2. Explicite, com base nos conhecimentos que tem sobre a poesia de Cesário Verde, as realidades opostas que a conjunção assinala.

4. Releia o verso “E ele vai naufragando como um barco” (v. 8).
4.1. Comente o valor aspectual do complexo verbal.
4.2. A comparação estabelecida entre o poeta e um barco é retomada na expressão “olhos de navio” (v. 19). Explique o significado de cada uma dessas comparações.


II


Leia o excerto do poema de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, semelhante ao de Sophia na maneira de observar o poeta Cesário Verde, o poeta do olhar, que regista e capta a realidade dos seus dias. Poderá ser um ponto de partida para a elaboração do texto.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Alberto Caeiro, Poesias: Heterónimos, Porto Editora