20.1.12

Ato III, cena IV e V

CENA IV
Telmo (só)

– Virou-se-me a alma toda com isto: não sou já o mesmo homem. Tinha um pressentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei nestes braços... Vou saber novas certas dele, no fim de vinte anos de o julgarem todos perdido; e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda... – era um milagre que eu esperava sem o crer! – eu agora tremo... É que o amor destoutra filha, desta última filha, é maior, e venceu... venceu… apagou o outro… Perdoai-me, Deus, se é pecado. Mas que pecado há-de haver com aquele anjo? Se ela me vivirá, se escapará desta crise terrível? Meu Deus, meu Deus, (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o por quem sois! (Aparece o Romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo que não dá por ele) Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquela alma; esperai-lhe com a da morte algum tempo!


CENA V
Telmo e Romeiro

Romeiro – Que não oiça Deus o teu rogo!
Telmo (sobressaltado) – Que voz! – Ah! é o romeiro. Que me não oiça Deus!
Porquê?
Romeiro – Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo filho que criaste?
Telmo (à parte) – Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por ele! ou por outrem, porque não me há-de ouvir Deus, se lhe peço a vida de um inocente?
Romeiro – E quem te disse que ele o era?
Telmo – Esta voz... esta voz…! Romeiro, quem és tu?
Romeiro (tirando o chapéu e alevantando o cabelo dos olhos) – Ninguém, Telmo; ninguém, se nem já tu me conheces!
Telmo (deitando-se-lhe às mãos para lhas beijar) – Meu amo, meu senhor... sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa



I


1. Refere os sentimentos que causam o conflito íntimo de Telmo na cena IV.

2. Aponta os sinais de pontuação que traduzem esses sentimentos e explica o valor de cada um desses sinais.

3. Explica a primeira fala do Romeiro na cena V.

4. Explicita as funções das didascálias ao longo da cena V.

5. Telmo reconhece D. João de Portugal através da voz.
5.1. Indica a forma como Telmo reage ao reconhecimento da identidade do Romeiro.
5.2. Menciona as razões que o Romeiro aponta para explicar a sua aparência física.

II

A – Resume por palavras tua a obra Frei Luís de Sousa.
B – Explica o título da obra Frei Luís de Sousa.
C – Indica os elementos que tornam esta obra importante.
D - Refere as temáticas tratadas em Frei Luís de Sousa.
E – Refere-te às características do Romantismo.
F – Aborda o sebastianismo em Frei Luís de Sousa.


III

Escolhe apenas um dos temas.

Tema A- Num texto expositivo argumentativo com cerca de 200 palavras, apresenta a tua perspectiva de leitor da peça Frei Luís de Sousa, em relação a uma das personagens da obra.

Tema B – Apesar de Frei Luís de Sousa ser uma obra do século XIX algumas das suas temáticas são contemporâneas. Num texto bem estruturado com cerca de 200 palavras,evoca a temática do adultério na sociedade atual.