22.1.12

Ato I, cena VIII

Leia o excerto seguinte de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.


Manuel (passeia agitado de um lado para o outro da cena, com as mãos cruzadas detrás das costas; e parando de repente) — Há de saber-se no mundo que ainda há um português em Portugal.
Madalena — Que tens tu, dize, que tens tu?
Manuel — Tenho que não hei de sofrer esta afronta… e que é preciso sair desta casa, senhora.
Madalena — Pois sairemos, sim; eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! esposo da minha alma… para aquela casa não, não me leves para aquela casa! (Deitando-lhe os braços ao pescoço.)
Manuel — Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir; e a estas horas, neste aperto… Mudaremos depois, se quiseres… mas não lhe vejo remédio agora. — E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido? É por mim que tens essa repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar-me debaixo dos mesmos tetos que o cobriram. — Viveste ali com ele? Eu não tenho ciúmes de um passado que me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena… Não falemos mais nisso: é preciso partir, e já.
Madalena — Mas é que tu não sabes… Eu não sou melindrosa nem de invenções; em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; nisso não… Mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Parece-me que é voltar ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar ali… — Oh, perdoa, perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… — que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João que me está ameaçando com uma espada de dois gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre… — Que queres? Bem sei que é loucura; mas a ideia de tornar a morar ali, de viver ali contigo e com Maria, não posso com ela. Sei decerto que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali três dias, três horas, sem que todas as calamidades do mundo venham sobre nós. […]

Alemida Garrett, Frei Luís de Sousa


I

Responda, por palavras suas e de forma completa, às questões que se seguem.

1. Contextualize este excerto na globalidade da obra.

2. Explique o sentido da frase inicial de Manuel e indique como ela antecipa o que se vai passar.

3. Caracterize Madalena psicologicamente com três traços e justifique dois deles. (Tenha em conta este excerto mas também a globalidade da obra.)

4. Explique resumidamente por que razão não quer ir Madalena para a antiga casa de D. João de Portugal.

5. Interprete a frase final de D. Madalena e explique porque se trata de um presságio.

6. Explique o significado estilístico das frases interrompidas (reticências) que encontramos na última fala de Madalena.


II

1. Leia a frase que se segue, retirada do excerto anterior de Frei Luís de Sousa.
«Madalena — […] eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. […]»

1.1 Redija um parágrafo com oitenta a cento e trinta palavras em que dê conta das limitações sentidas pelas personagens femininas em terem uma palavra no rumo da ação e no destino da Pátria. Revele no texto o seu conhecimento da obra.