23.1.12

Ato I, cena II

Leia o excerto de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

Madalena (enxuga os olhos e toma uma atitude grave e firme) — Levantai-vos, Telmo, e ouvi-me. (Telmo levanta-se.) Ouvi-me com atenção. É a primeira vez e será a última vez que vos falo deste modo e em tal assunto. — Vós fostes o aio e o amigo de meu senhor… de meu primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tínheis sido o companheiro de trabalhos e de glória de seu ilustre pai, aquele nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como pai. Entrei depois nesta família de tanto respeito; achei-vos parte dela, e quase que vos tomei a mesma amizade que aos outros… chegastes a alcançar um poder no meu espírito, quase maior… — decerto maior — que nenhum deles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos homens e dos livros — porém, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais — me fizeram ter-vos numa conta, deixar-vos tomar, entregar-vos eu mesma tal autoridade nesta casa e sobre minha pessoa… que outros poderão estranhar…
Telmo — Emendai-o, senhora.
Madalena — Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo. — Mas agora deixai-me falar. Depois que fiquei só, depois daquela funesta jornada de África que me deixou viúva, órfã e sem ninguém… sem ninguém, e numa idade… com dezassete anos! — em vós, Telmo, em vós só, achei o carinho e proteção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em lugar de pai; e eu… salvo numa coisa! — tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como filha.
Telmo — Oh, minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos apartastes dos meus conselhos…
Madalena — Para essa houve poder maior que as minhas forças… D. João ficou naquela batalha com seu pai, com a flor da nossa gente. (Sinal de impaciência em Telmo.) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória, como durante sete anos, incrédula a tantas provas e testemunhos da sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves aí houve… Cabedais e valimentos, tudo se empregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castela tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redenção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar naquelas terras, a todos se encomendava o seguir a pista do mais leve indício que pudesse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquela notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcácer. Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida…
Telmo — Senão a mim.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa

I

Responda, por palavras suas e de forma completa, às questões que se seguem.

1. E nquadre este excerto na globalidade da obra e resuma o que se está a passar em cena.

2. A partir do seu conhecimento da peça, caracterize Telmo com três traços e justifique dois deles.

3. Explique a relação de tensão que se estabelece neste excerto entre Madalena e Telmo.

4. Neste excerto, Madalena parece querer justificar-se. De que se justifica ela e porquê?

5. Identifique um recurso expressivo presente no excerto e comente a sua expressividade.


II

1 A religião e os seus valores desempenham um papel importante em Frei Luís de Sousa.
O próprio título contém uma referência a uma figura eclesiástica.
1.1 Num parágrafo com oitenta a cento e trinta palavras, explique porque se pode afirmar que a religião é um dos temas centrais da peça


III

1. Identifique o processo de coesão textual centrado nas palavras destacadas nas frases seguintes.
a) «Levantai-vos, Telmo, e ouvi-me.»
b) «Vós fostes o aio e o amigo de meu senhor… […] o companheiro […].»
c) «[…] chegastes a alcançar um poder no meu espírito, […].»
d) «Mas agora deixai-me falar.»

2. Identifique as funções sintáticas das palavras e expressões destacadas nas frases que se seguem.
a) «Levantai-vos, Telmo, e ouvi-me.»
b) «Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida…»


IV

1. Redija um texto expositivo-argumentativo bem estruturado, com duzentas a trezentas palavras, em que defenda a ideia de que as religiões podem desempenhar um papel importante na coesão de uma comunidade e na difusão de bons modelos de comportamento. Discuta o tema desenvolvendo dois ou três argumentos e ilustrando-os com exemplos.