1.1.12

As visitas

Era uma grande casa, a minha, e eu vivia dentro dela com a ideia de viver no mundo todo. Acordava cedo e até à hora do almoço percorria metade do mundo, a outra metade até à hora do jantar. Todos os dias. A sala, cheia de vidros e quadros de gôndolas e açudes, marcava a fronteira entre a metade do almoço e a metade do jantar.
Era uma sala grande, a meio do corredor, que nunca se abria, que nunca era usada, sempre muito fria e escura: "para as visitas", dizia a minha tia. E, passando por ela, o corredor enorme, povoado de mesas, espelhos nas paredes, retratos de antepassados, olhando-me com uma seriedade que me assustava, como se eles soubessem sempre tudo o que de mal eu tinha feito, jarrões cheios de flores artificiais e armários, muitos armários onde se acumulava roupa que nunca servia, porque tinha sido muito cara e era pena estragar. "Roupa para as visitas", dizia a minha tia. Roupa que lentamente envelhecia, se enchia de bolor ou de traça, mas cuidadosamente alinhada nas prateleiras e apertada com fitas azuis e cor-de-rosa que nunca se desatavam.
De vez em quando a minha tia abria o armário e ficava a olhar aquela fartura, aquela arrumação, passando a mão pelas dobras amarelecidas dos lençóis guardados unicamente para servirem na cama do quarto de visitas -onde nunca ninguém dormia.
No pequeno quarto ao fundo da cozinha, a Graciete passava tardes inteiras, meses inteiros, anos inteiros, debruçada sobre o enorme bastidor de madeira, fazendo "ajour", ponto pé de flor, ponto a cheio e outros pontos que a minha memória desaprendeu, nas barras dos lençóis de linho, que tinham os armários do corredor como único destino. Um dia, a Graciete foi para o Canadá, arrumou-se o bastidor no roupeiro e o mundo da minha tia estremeceu pela primeira vez. Foi então que começou a aparecer, no seu vocabulário, a terrível expressão "já não arranjo pessoal". E depois da saída da Graciete e do "pessoal", cada um de nós foi à sua vida - e ela ficou, no enorme casarão, rodeada de vidros, quadros, retratos, mesas e mesinhas, jarrões, espelhos e armários a abarrotar de roupa por usar. De vez em quando, abria-os e dizia: "São para as visitas". (...)

Alice Vieira, in Jornal de Notícias, 14 de Outubro de 2001 (texto com supressões)


I

1. Atenta nas passagens predominantemente descritivas.

1.1. Faz a descrição da casa do narrador.

1.2. Prova que a descrição não é feita ao acaso, antes respeita uma ordem determinada.

2. A última passagem do texto é predominantemente narrativa (a partir de "Um dia..."

2.1. Completa as expressões temporais que se seguem com as principais ações nar­radas:

Um dia, __________

E depois __________

2.2. Evidencia, na passagem que se segue, o valor da repetição do adjetivo desta­cado: "(...) a Gradeie passava tardes inteiras, meses inteiros, anos inteiros, debruçada sobre o enorme bastidor de madeira (...)"

3. Repara que o adjetivo presente no excerto que se segue está colocado antes do nome: "Era uma grande casa, a minha... "

3.1. Explica o efeito resultante desta opção da escritora.

3.2. Escreve dois exemplos de frases em que a posição do adjetivo (anteposto ou posposto) altere significativamente a mensagem.

4. Relê o terceiro parágrafo do texto.

4.1. Sublinha os advérbios com valor de modo e de tempo aí presentes.

4.2. Explica o seu valor expressivo neste contexto.

4.3. Identifica o tempo verbal predominante, explicitando o seu valor no contexto da descrição.

5. Relê, agora, o último parágrafo.

5.1. Salienta, aí, uma ação pontual, no passado, que veio quebrar a rotina instalada.

5.2. Diz de que forma é marcada a pontualidade dessa ação - refere-te aos tempos verbais e à expressão temporal que situa a ação.

6. Identifica o referente do termo anafórico "ela" na seguinte passagem: "E, passando por ela..."

6.1. Reescreve a frase, substituindo os vocábulos destacados por antónimos: "Era uma sala grande, (...) sempre muito fria e escura..."

II

1. Seleciona apenas uma das propostas que se seguem (A ou B).

A. "Hoje regresso à casa, na urgência do senhorio que me dá três meses para a 'desfa­zer'." É assim que se inicia a conclusão do texto que acabaste de analisar. Imagina o que se terá passado e elabora uma conclusão para esta história, com cerca de cento e cinquenta palavras, organizada em dois parágrafos e que contenha obriga­toriamente os verbos e os nomes da lista apresentada.


B. Observa, com atenção, a pintura abaixo reproduzida e, a partir dela, imagina um pequeno conto, obedecendo às seguintes instruções:

o narrador deve ser heterodiegético (não participa na história como personagem);

o texto deve ser predominantemente narrativo, com recurso pontual à descrição e sem diálogos;

a relação entre as personagens deve ser bem esclarecida.