7.1.12

Amor escreve-se com água




Querida

Acabo de receber a carta que me enviaste pelo cabo submarino. Vinha um pouco húmida, mas dada a enorme distância líquida que nos separa, é perfeitamente compreensível.
Senti-me contente por te saber bem, assim como os pequenos, nessa calma profunda e silenciosa de que já tanta saudade tenho.
O nosso trabalho, aqui, vai prosseguindo, lento mas eficaz. As falésias do litoral estão já suficientemente corroídas pelo nosso labor persistente, para permitir que as brigadas de chernes escavadores recentemente chegadas dos mares do Sul comecem a atuar em profundidade.
Também a infiltração e demolição nos rios se tem feito como convém, obedecendo com rigor ao plano estabelecido, tudo na maior ordem e sigilo, graças às informações de uma exatidão realmente admirável que os salmões exploradores nos têm fornecido.
Creio que esta parte do continente em breve começará a oscilar, a desaparecer nas águas, o que marcará o verdadeiro início do Grande Salto para o Fundo.
Segundo informações concretas que aqui obtive, fiquei a saber que as Brigadas de Choque dos tubarões-martelo estão já a concentrar-se nas zonas previstas. Isto, por enquanto, é segredo rigoroso como calculas, claro.
Compreenderás, querida, quanto me custa o estar tanto tempo separado de ti e dos pequenos mas, quando todos nós sabemos que este esforço culminará na aparição de um mundo melhor em que as águas serão realmente limpas e seguras, a separação torna-se mais suave.
Lembras-te da grande baleia branca que às vezes avistávamos aquando das férias que cos-tumávamos fazer no Norte e a quem os pequenos chamavam de tia Josefa? Pois trabalha agora connosco; dirige as equipas de ataque com icebergs, calcula tu!
Apenas temos de lamentar certos golfinhos que se tornaram colaboracionistas, o que nos obrigou a expulsá-los. Felizmente são apenas casos esporádicos, talvez até recuperáveis.
Como vês, estamos realmente trabalhando para um futuro em que os novos de todos os mares possam vir a ter uma vida livre e digna.
Querida, despeço-me de ti com saudade mas, também, com orgulho. Diz aos pequenos que o pai os recorda constantemente. Tem cuidado com o Chuxo, ultimamente andava com as guelras inflamadas. Não lhe dês algas poluídas, é um perigo, bem sabes.

Águas transparentes para ti, meu amor

do teu
Estêvão


Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin,
Lisboa, Estampa, 1974



I

1. Dê conta da sua primeira reação de leitura a este texto; que aspeto ou aspetos destaca? Considera que leu uma carta, um conto, uma fábula? Justifique.

2. Faça o levantamento das marcas de afetividade do discurso e comente os efeitos de sentido produzidos, nomeadamente a sua relação com o título.

3. Faça o levantamento das expressões que remetem para uma operação militar e indique o nome e os objetivos de tal operação.

4. Refira os executores das ações em curso e explicite os efeitos que decorrem da relação entre características e papéis respetivos de cada um deles.

5. Indique os traços caracterizadores da personagem «Estêvão».

6. Discuta os possíveis sentidos do texto, bem como a atualidade do mesmo.


II

Redija um dos três textos seguintes:
• a declaração exigida a um golfinho que se quis alistar na operação militar referida no texto;
• o relatório de uma das ações (militares ou de espionagem) de tal operação;
• a carta a que «Estêvão» terá respondido com o texto transcrito (ou a que recebeu em resposta a este).