3.12.11

Sermão de Santo António aos Peixes

«Vos estis sal terrae» [1]

S. Mateus, V, 13

I

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo [2]; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar, que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça [3] que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António [4], que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou. Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino [5], contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.


I

A. Lê atentamente o excerto retirado da primeira parte do Sermão de Santo António aos Peixes.

1. Transcreve aquilo que constitui o conceito predicável.

1.1. Explica em que consiste.

1.2. Estabelece a correspondência entre os elementos linguísticos que constituem o conceito predicável e aquilo para que, metaforicamente, estes remetem.

2. Refere os motivos que, segundo o orador, estão na origem da corrupção da terra.

2.1. Aponta o elemento gramatical (referindo a respetiva classe) que sustenta a enunciação dessas duas possibilida­des.

3. Indica o motivo que levou Santo António a pregar aos peixes.

4. Explica o valor da utilização das interrogações retóricas.

B. Assinala como verdadeiras ou falsas as seguintes afirmações sobre o Padre António Vieira. Corrige as falsas.

1. António Vieira era um padre dominicano.

2. A sua vida decorreu sempre entre Portugal e o Brasil.

3. Foi perseguido pela Inquisição, mas teve a proteção do Papa.

4. Os seus sermões eram muito concorridos.

5. O rei D. João IV teve muito apreço por ele.

6. Acreditava nas profecias do Bandarra e interpretou-as como sendo o anúncio da ressurreição de D. João IV (entretanto falecido), que voltaria para erguer o Quinto Império, o qual seria portu­guês e unificaria o mundo.

7. Uma das suas obras importantes foi escrita em latim.

8. Lutou pela liberdade dos índios apenas na sua juventude.

9. Com a idade foi perdendo a visão.

10. A sua vida decorreu ao longo de poucas décadas do século XVIII.

II

1. Indica se as afirmações abaixo são verdadeiras (V) ou falsas (F) e, de seguida, corrige as falsas.

a. A derivação e a composição são processos regulares de formação de palavras.

b. Numa palavra derivada existe uma única forma de base.

c. A composição resulta da junção de um ou mais afixos a uma forma de base.

d. A parassíntese é um dos processos de composição.

e. A parassíntese consiste na adição simultânea de um prefixo e de um sufixo a uma forma de base.

f. Na composição associam-se duas ou mais formas de base.

2. Identifica o intruso em cada alínea, considerando o processo de formação das palavras de cada série.

a. RTP DVD GPS IVA PC

b. cibernauta flexissegurança expocasa você previsão

c. doping blogue stress ecografia sanduíche

d. GNR ETAR - PALOP OVNI ONU

e. ribombar charlatão cacarejo catrapum ronronar

f. otorrino To realeza pneu manif

3. Assinala a alínea em que o termo sublinhado não exerce a função sintética de sujeito.

a. Tanto o Pedro como o Telmo trabalham como bombeiros.

b. Eu e a minha prima mais velha passamos férias em Moledo.

c. Cantar e dançar era o seu passatempo favorito.

d. Com o Tiago, os amigos raramente barafustam.

e. Carlota, prepara o discurso de abertura do festival.

4. Indica a alínea em que o pronome pessoal destacado não exerce a função indicada.

a. Pedi-lhe o livro emprestado por dois dias. (complemento indireto)

b. Mais logo, vocês querem aparecer lá em casa? (sujeito)

c. O Vítor telefonou-me às duas da manhã, (complemento direto)

d. O Rui olhava-a enternecido, (complemento direto)

e. Discordo completamente de ti. (complemento oblíquo)

5. As frases seguintes constituem textos coesos, mas sem coerência. Explica a razão da incoerên­cia em cada caso:

a. Os dois assaltantes são um trio perigosíssimo.

b. Um a um, todos os doentes do Dr. Cardoso lhe manifestaram coletivamente o seu apreço

c. Um jovem foi assassinado ontem à noite. O seu estado inspira cuidados.

d. Furiosos, os telespectadores correram atrás do treinador.

e. Todos os anos, nós fazemos exames médicos anualmente.

III

1. Segundo o Padre António Vieira, a terra encontra-se corrompida, ou porque "o sal não salga" ou porque "a terra se não deixa salgar".

1.1. A partir do sentido da metáfora do orador, elabora um texto crítico sobre a corrupção da sociedade atual. (150 a 250 palavras)



[1] Vós sois o sal da terra.

[2] se preocupam mais em exibir os seus dotes do que em expor a doutrina de Cristo

[3] em destaque

[4] Santo António (Lisboa, 1190 - Pádua, 1231) – De seu nome Fernando de Bulhão; Frade franciscano português, cujos méritos de pregador e professor de teologia se evidenciaram durante a sua estadia em Itália, onde morreu.

[5] Atualmente a cidade de Rimini, na Itália.