29.12.11

Quem és tu?


Estavam mesmo à beira do precipício. Lá em baixo, o Vale das Orquídeas, invisível, mergulhado na noite negra, fora coberto pela nuvem de tempestade. No meio dessa nuvem, uma trovoada estalou. Como a parede de rocha era muito alta, os dois homens viam os relâmpagos de cima. No topo da escarpa o céu mostrava-se limpo, cheio de estrelas.
- E estranho que tu, um homem inteligente, um príncipe e um sacerdote de Devaiah, não tenhas pensado numa coisa tão simples como esta: o quartzo é uma lágrima de Deus. Não dizem vocês, na Oração do Ocaso, que Devaiah vive e sorri nas gotas do nosso sangue e nas lágrimas do nosso pranto? Se o Deus é a Vida, nós somos uma manifestação divina. Se Devaiah se manifesta em nós, quanto mais fácil não lhe será chorar lágrimas de cristais de quartzo?
Andaram um pouco. Rashid parou para perguntar:
- Quem és tu?
- Oh, deuses! Recomeçamos? Eu sou...
- Não. Desta vez não me embrulhas com palavras. Qual é o teu nome? Conheces-me há mais de um ano, sabes tudo da minha vida, mostrei-te até as minhas esposas. De ti, não conheço nem o nome! Entre os nómadas, ocultar o nome é um acto hostil.
- Eu não sou um nómada - lembrou o poeta.
- Por isso não tenho insistido. Mas não posso nem quero continuar a chamar-te "poeta"...
- Sobretudo porque não gostas dos meus poemas! - completou o poeta, a rir. Mais uma vez retomou o passeio junto ao abismo e disse por cima do ombro:
- Podes chamar-me Toth.
E Rashid, com estranheza: - Posso chamar-te Toth? Não é esse o teu nome?
O poeta fez um gesto de impaciência. - Usei-o em tempos, gosto dele. Claro que não é o meu nome. Os nomes que os homens dão uns aos outros ou a si próprios não são os seus nomes verdadeiros, são palavras que só servem para os enganar. O nosso nome verdadeiro pertence - para usar um termo de acordo com a tua fé - pertence a Devaiah. Ou seja: está com Deus. O resto é puro engano: quando nasceste, os teus pais escolheram um nome para ti, uma simples palavra... não é verdade?
- De facto - retorquiu Rashid com algum sarcasmo - fizeram essa maldade, mas havia uma atenuante: todos os pais fazem isso aos filhos.
- E tu, como todos os filhos, logo te habituaste à ideia de que eras essa palavra - Rashid. E julgando ser "Rashid", não fizeste o mínimo esforço, a pergunta essencial: "Quem sou eu?" Perdeste-te em "Rashid". Ficaste preso dentro de "Rashid". E eu, meu amigo, sou livre.

João Aguiar, O Homem Sem Nome, Ed. ASA




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O nosso verdadeiro nome:

só pode ser revelado por Deus

é sempre ocultado por Deus

é pertença de Deus

1.2. O nome de uma pessoa, segundo o poeta, é:

prisão

liberdade

nção dos pais

2. Divide o texto em duas partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Tenta visualizar o que é descrito no primeiro parágrafo e mostra a excepcionalidade da situação.

4. Quais as indicações dadas no texto que referenciam Rashid como pertencente a uma cultura diferente da nossa?

5. Esclarece qual a posição de Rashid e a do poeta acerca do nome de cada pessoa.

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

O nome é importante.