18.12.11

Para além do razoável


As figueiras, este ano, cobriram-se de mais e melhores figos, como se quisessem demonstrar a sua pujança no Verão da despedida. Avistava-as do meu terraço da casa velha e punha-me a pensar naquele desperdício enorme da natureza, tão generosa a oferecer os seus pomos e tão humilde a aceitar a recusa dos homens. Restam-lhe as aves, os insectos, as mil criaturinhas que lhe devoram os dons e lhe agradecem os frutos. Não rejeita nenhum sugar de abelha, nenhum debicar de passarinho, nenhum roçar de libelinha, nenhum zumbir de moscardo.
Já, nos últimos dias, pressentia, mais do que via, uma corrida de lebre, um esvoejar de perdiz. Preocupava-me toda aquela fauna, toda aquela flora, toda aquela beleza, fotografava-a da minha varanda, mas o resultado ficava tão aquém da realidade que me apercebi, logo ao primeiro rolo, da inutilidade desta tentativa de registo. Era apenas um bocado de mata igual a mil bocados de mata que existem por esse país fora, nada a identificava como o meu bocais do de mata, se não fosse em algumas fotografias aparecer em primeiro plano um ramo de glicínias do meu terraço, em outras uma nesga de rio correndo ao fundo.
Do mesmo se queixa a Filomena, que fez centenas de fotografias da aldeia, dos habitantes, dos acontecimentos, mas não lhes encontra o flagrante deste destino diferente, não perpassa nelas, à excepção de alguns olhares onde a água espreita, nenhuma ameaça de aniquilamento, nenhum prenúncio de morte. Quem não conhecer a história julgará tratar-se de uma aldeia tranquila, com o seu remancho alentejano, a sua soalheira, o seu folclore.
Decorreu uma eternidade entre o último dia em Rio do Anjo e o dia seguinte, o da mudança definitiva para a aldeia nova.
Porque não há calendários que marquem o nosso tempo interior, séculos que podem separar o meu eu de hoje do meu eu de amanhã, as complexas e sinuosas medidas da memória, das memórias, os atalhos entre o que deixamos e o que esperamos encontrar. Existe também o estranho desencontro de ter o corpo num lugar e a alma em outro, de já estar lá ou de ainda não estar aqui.
A mudança não foi fácil, nem física nem espiritualmente. Dizem os chineses que três mudanças igualam um incêndio, esta é a minha segunda mudança, tentei despachá-la com um mínimo de prejuízo.
Mas alguma coisa mudou, também, nas almas, na minha talvez, na da Filomena seguramente. Parecemos um pouco outros, tudo isto nos afectou para além do razoável.

Rosa Lobato Faria, O Prenúncio das Águas, Ed. ASA


Notas:
pujança: vigor; exuberância.
desperdício: esbanjamento.
pomos: frutos carnudos.
flagrante: evidência.
perpassa: (se) percebe.
aniquilamento: destruição; abatimento.
prenúncio: anúncio do que há-de acontecer; sinal.
remancho: pachorra; indolência.
sinuosas: tortuosas.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A mudança de que fala o texto:

está para breve

já foi feita há algum tempo

é realizada nesse dia

1.2. Era inútil registar a natureza, porque nas fotografias:

apareciam as glicínias em primeiro plano

aparece o flagrante do destino

a mata é toda igual

2. Completa o esquema apresentado, procedendo à delimitação das partes e à ela­boração das respectivas sínteses.

1 a parte (….. parágrafos):

2.a parte (...... parágrafos):

3. Presta atenção ao tema do texto que é a mudança.

3.1. Na realidade, em que consistiu a mudança?

3.2. Como tentou o narrador minimizar as consequências?

4. Como viveram as pessoas as consequências da mudança?

5. Qual foi o comportamento da natureza no Verão da despedida?

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

As mudanças afectam sempre.