29.12.11

O centro do deserto


Era um deserto imenso. A sua aridez alastrava por planícies, montes e vales que um dia haviam sido férteis e agora eram dunas de areia branca, extensões de terra gretada e velhos leitos de rios secos.
Com o rolar dos anos, por cima deste deserto o céu transformara-se numa chapa de aço azul que duplicava o calor e a luz do Sol. Isto acontecia sobretudo na Zona Central, onde não havia uma única planta nem o menor vestígio de animais. Na periferia, ainda era possível encontrar, de espaço a espaço, os ossos brancos de aves migradoras que se desviavam da rota e acabavam por tombar fulminadas pelo calor. Viam-se também esqueletos de grandes mamíferos selvagens, os kotys, que periodicamente enlouqueciam e se precipitavam para a morte em manadas inteiras.
Mas nem aves nem quadrúpedes atingiam o centro. O coração do deserto permanecia inviolado e assim se manteve durante milénios, envolvido em desolação e silêncio.
Ora, um dia, uma pequena sombra apareceu no horizonte e avançou bem pelo meio daquele horror mudo e ressequido. Se alguém pudesse estar ali, veria que essa sombra era um poeta ligeiramente contrariado, montando um cavalo também contrariado, embora, por razões diferentes.
O poeta avançava pelo deserto e de vez em quando olhava à sua volta como se houvesse alguma coisa que ver além de céu e areia. Ao mesmo tempo ia considerando quais as razões de descontentamento - as suas ou as do cavalo - eram mais legítimas. Acabou por concluir, com certo sentido de justiça, que o descontentamento do cavalo era mais pertinente. Em primeiro lugar, o animal não sentira o menor desejo de se meter pelo deserto; depois, o calor era insuportável e o solo quebradiço dificultava-lhe a marcha. Para cúmulo, carregava no dorso o poeta e a sua bagagem.
Isto quanto ao cavalo. As contrariedades do cavaleiro eram só duas: esquecera-se de fazer provisão de água e não sabia onde estava o oásis mais próximo, nem sequer se havia algum oásis.

João Aguiar, O Homem Sem Nome, Ed. ASA


Notas:
gretada: fendida; estalada; com gretas.
periferia: região afastada do centro.
quadrúpedes: alguns dos mamíferos que se movem com quatro membros.
pertinente: justificado; lógico.
para cúmulo: ainda por cima.



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A descrição do deserto contempla:

o passado

o presente

a transformação

1.2. Enquanto avançava para o centro do deserto, o poeta ia considerando:

as razões do descontentamento

a legitimidade das razões do descontentamento

as consequências das razões do descontentamento

2. Divide o texto em duas partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Ordena as palavras apresentadas em três frases, obtendo, assim, a descrição do deserto, quando era uma planície fértil.


4. Presta atenção aos três primeiros parágrafos. Faz o levantamento de palavras e expressões que ajudam a construir a ideia de morte.


5. O cavalo considera o cavaleiro como sendo um poeta maluco. No entanto, "esse maluco" soube discernir com lucidez. Que aspeto justifica a última afirmação?

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, o provérbio:

De poeta e de louco todos temos um pouco.