19.12.11

A Noite de Natal



Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava.
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.
Um dos primos puxou-a por um braço.
— Joana, ali estão os teus presentes.
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas.
À sua volta todos riam e conversavam.
Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava:
— Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.
E a festa do Natal continuava.
As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.
Até que alguém disse:
— São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
O pai e a mãe de Joana também saíram.
— Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles.
E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas.
A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas.
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento.
Depois perguntou:
— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
— O que é que eu disse?
— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.
— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.
— Mas então o Natal dele como foi?
— Foi como nos outros dias.
— E como é nos outros dias?
— Uma sopa e um bocado de pão.
— Gertrudes, isso é verdade?
— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio lá deve estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.
«Que triste lá deve estar!», pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, A Noite de Natal


I

1. Numera as afirmações seguintes, de acordo com a ordem dos acontecimentos narrados.

a) Joana observava o presépio junto à árvore de Natal.
b) A menina verificou pela segunda vez os presentes que tinha recebido.
c) Joana decidiu que ia dar os presentes ao amigo naquela noite.
d) A determinada altura, alguém disse que era a hora da missa.
e) Sozinha no quarto, Joana pensou no amigo Manuel.
f) A menina perguntou à Gertrudes se o Manuel não teria presentes.
g) Um dos primos puxou Joana pelo braço para ir ver as prendas de Natal.
h) Os pais de Joana saíram.

2. No início do texto, é descrita a árvore de Natal à volta da qual se reúne toda a família de Joana. Apresenta as características da árvore, de acordo com a descrição presente no primeiro parágrafo.

3. Identifica o motivo que terá levado Joana a pensar no amigo Manuel, quando recebeu os presentes de Natal.

4. Retira do texto seis palavras que te permitam formar um campo lexical relacionado com o Natal.

5. Entre o momento da abertura dos presentes e a hora em que a casa fica em silêncio, são diversos os acontecimentos descritos pelo narrador.
Enumera três desses acontecimentos, mantendo a ordem de aparecimento no texto.

6. Após a conversa com a Gertrudes, vários pensamentos preocupavam a Joana.
Descreve o estado de espírito da personagem, indicando os motivos que o originaram.

7. Transcreve uma expressão textual que indique que Joana tomou uma decisão.

8. Joana decidiu ir levar os presentes ao amigo naquela mesma noite.
Imagina que a menina tinha passado pela cozinha para levar um bolo feito pela cozinheira Gertrudes para o dia de Natal, de forma a partilhá-lo com o amigo. Resolveu também copiar a receita para oferecer à mãe do Manuel, mas quando chegou à cozinha viu que a Gertrudes a tinha desordenado, para manter o segredo do seu melhor bolo.
Numera as instruções de 1 a 8, de forma a reconstituir a receita. O último passo já está numerado.



II

Joana cumpriu a sua promessa e foi levar os presentes ao amigo.
Imagina como seria a casa de Manuel. Escreve um texto em que apresentes a descrição desse espaço, a partir do ponto de vista de Joana.