1.12.11

A Cidade e as Serras

Lê atentamente os textos e, de seguida, responde às questões formuladas.


Excerto A

No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette; toda de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto -porque as havia largas como a roda maciça de um carro sabino; estreitas e mais recur­vas que o alfange de um mouro; côncavas em forma de telha aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, permane­cia este Príncipe passando pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.

No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório - que era ape­nas um resumo das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam unicamente dois jatos gra­duados desde zero até cem; os dois duches, fino e grosso, para a cabeça; a fonte esteri­lizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho esti­val. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em disciplina e servi­dão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim o meu Jacinto enxu­gando as mãos a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam, inscritas pelo Grilo ou por ele, as ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas1.

[…]

Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, só bocejava, num bocejo imenso e mudo.

A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Porto Editora

[Cap. III, págs. 31-33 (com supressões)]

1. lauda: página de livro.


Excerto B

Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da Ópera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.

- Uma festa?...

- Por causa do grão-duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso e s muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu queria um almoço curto. O grão-duque reclamou uma ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reúno no domingo três ou quatro mulheres, e uns dez homens bem típicos, para o divertir. Também aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma maçada amarga!

[…]

A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Porto Editora

[Cap. IV, pág. 47]

I

1. O protagonista da obra passa por três grandes fases na sua vida.

1.1. Explicita a qual delas se reportam as passagens que leste.

2. Em ambos os excertos há um movimento involuntário do corpo que se repete.

2.1. Identifica-o.

2.2. Esclarece o que este gesto evidencia e a que factos da vida de Jacinto se encontra associado.

3. No excerto A, o ritmo textual é intenso.

3.1. Salienta o recurso estilístico que contribui para que o ritmo do texto seja rápido.

3.2. Relaciona esse ritmo com o conceito de 'civilização'.

3.3. Adianta uma explicação para a necessidade evidenciada pelo protagonista de acumu­lar objetos.

3.4. Explica por que razão, nesta fase da vida, estando a agenda de Jacinto completamente preenchida com "ocupações", a personagem evidencia um imenso tédio.

1. Lê as palavras que se seguem acerca de Eça de Queirós e, a partir delas, redige um texto expositivo-argumentativo que tenha entre noventa e cento e vinte palavras onde digas se concordas ou não com as afirmações feitas e porquê.

"Eça de Queirós é, para mim, acima de tudo, o supremo ironista da nossa literatura moderna e o renovador da língua literária."

Urbano Tavares Rodrigues, in Camões, Revista de Letras e Literaturas Lusófonas,

números 9-10, abril/setembro de 2000