2.12.11

A Cidade e as Serras



1. Lê atentamente o excerto de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que se segue.

Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterra­da, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. "Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!", murmurava, deitando os braços, sempre deslum­brada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. "Vamos para abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!" Mas em abril vie­ram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de março garan­tiam uma farta colheita. [...] Desde o inverno, sentia também no corpo como um come­ço de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.
Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, - decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa de espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
- Eh, Fernandes!
Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina - por ele me ter reconhecido! E atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara - o bom Marizac exclamava na mesma sur­presa alegre:
- E Jacinto?
Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados no pescoço.
- Ah que canalha! - exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. - É capaz de ser feliz!
- Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios
- Indecentemente - murmurou Marizac muito sério. - Que canalha!
Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette. [...]
- Em cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um bocado mais de dispepsia. E tudo segue.


QUEIRÓS, Eça, 2010. A Cidade e as Serras. Porto: Porto Editora
[Cap. XVI, pp. 240-242] (com supressões)

2. Integra o excerto no desenrolar da ação.

3. Transcreve as expressões que mostram a evolução temporal da ação.

4. Classifica o narrador do texto:

a. quanto à sua presença na ação;

b. quanto à focalização que assume.

4.1. justifica.

5. Identifica as personagens presentes no texto.

6. Sintetiza as razões que justificam os adiamentos de um regresso a Paris por parte de Jacinto.

7. Tendo em conta o conteúdo do diálogo de José Fernandes com Marizac, relaciona a situação de Jacinto com a realidade de Paris.

8. Transcreve um exemplo de cada uma das modalidades de reprodução do discurso pre­sentes no excerto.

9. Classifica como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações seguintes.

a. O advérbio conectivo "Mas" (linhas 3, 5 e 10) tem um valor semântico de concessão relativamente ao conteúdo preposicional anteriormente expresso.

b. O advérbio de frase "certamente" desempenha a função sintática de modificador.

c. Na frase "Parti eu para Paris.", o grupo preposicional "para Paris" desempenha a função sintática de modificador do grupo verbal.

d. A oração "segurando numa das mãos uma garrafa de espumante" é subordinada não finita participial.

e. Os correferentes "seu" (2 vezes na mesma linha) e "ele" são elementos da cadeia anafórica cujo referente é "jacinto".

f. A oração "que ele trazia escarranchados no pescoço" é subordinada adjetiva relativa restritiva.

g. As palavras de Marizac "É capaz de ser feliz!" concretizam um exemplo de modalidade deôntica.

9.1. Corrige as afirmações falsas.