6.12.11

Cafés




O Café foi e continua a ser - continuaria a ser se os Cafés não estivessem a desaparecer da geografia de Lisboa - um local de conversa ou de sossego, de tranquilidade total, por isso mesmo de criação. Não sei se Bocage escreveu algumas poesias sobre as mesas do seu Café, mas é natural que o tenha feito. Ele e tantos, tantos outros poetas, já que de poetas se trata. «As mesas do Café endoideceram feitas de ar.», dizia Sá-Carneiro. E na «Apoteose»: «Sereno / em minha face assenta-se um estrangeiro / Que desdobra o Matin». No Café passa gente que nunca mais vemos, e que desdobra o Matin ou qualquer outro jornal. Ou reúnem-se pessoas conhecidas-desconhecidas que conversam. Bocage, que morreu conformista e a fazer traduções para subsistir - ainda frequentaria o Nicola nessa altura? Ficaria decerto espantado se cá pudesse voltar e encontrasse um Banco (Já houve um que teria oferecido 14 000 contos de trespasse...).
Não tenho nada contra os Bancos mas, vendo bem, não deveria o Nicola ser preservado, com os seus quadros evocativos? Há tempos uma amiga brasileira de visita a Lisboa, depois de ir ao Jerónimos, à Torre de Belém e às Janelas Verdes, foi aos Irmãos Unidos ver o retrato de Fernando Pessoa pintado por Almada e olhar demoradamente o local onde o poeta passara tanto do seu tempo. Porquê esta morte violenta dos Cafés de Lisboa? E certo que a cidade cresce, muda de face, actualiza-se - mas para que há-de ela repetir por suas mãos (é um modo de dizer) a catástrofe de 1755 que quase nada deixou atrás de si? Por que não poupar algumas casas que têm recordações, que têm história? Quando, no liceu, comecei a aprender Literatura, lembro-me de ver o nome do Nicola ou de o ouvir citar a propósito de Bocage. O poeta situava-se, pois, em Lisboa, ali, em pleno Rossio, era muito vivo assim. Agora, se o Nicola desaparece, vai-se com ele um pouco do poeta do Sado. Eis Bocage com residência fixa para todo o sempre em Setúbal, sua terra natal.

Maria Judite de Carvalho


I

1. A temática do texto incide sobre os Cafés.
1.1 Refere como é encarado este espaço pela autora.
1.2 Identifica os nomes da literatura portuguesa associa aos cafés de Lisboa, justificando.

2. Atenta na afirmação: «reúnem-se pessoas conhecidas-desconhecidas».
2.1 Explicita a acepção do vocábulo «reúnem-se».
2.2 Explica a ligação, através de hífen, dos vocábulos «conhecidas» e «desconhecidas».

3. «Irmãos Unidos» é um café apresentado como referência turística.
3.1 Fundamenta a afirmação anterior.
3.2 Esclarece porque é valorizado este espaço.

4. Explica o motivo pelo qual Maria Judite de Carvalho evoca a «catástrofe de 1755».

5. Indica a consequência do provável «desaparecimento» do café Nicola.

6. A interrogação retórica é uma figura de estilo de grande significado. Explicita o seu valor expressivo.

7. Classifica como verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmações:
a) Os Cafés são espaços cosmopolitas.
b) Os poetas são pessoas boémias.
c) O Café é o melhor sítio para ler o jornal.
d) A literatura fez história nos Cafés lisboetas.
e) As questões economicistas são sensíveis às referências culturais.
f) A autora deseja que os interesses do presente não aniquilem o passado histórico.


II

1. Transcreve, da primeira frase do texto, os vocábulos do campo semântico de «paz».
2. Classifica o acto ilocutório presente na frase «Porquê esta morte violenta dos Cafés de Lisboa»?
2.1 Esclarece a sua intencionalidade comunicativa.
3. Estabelece a correcta correspondência entre os marcadores discursivos da coluna A e os da coluna B:

Coluna A
1. «mas» (l. 3)
2. «já que» (l. 4)
3. «decerto» (l. 8)
4. «Quando» (l. 17)

Coluna B
a) todavia
b) visto que
c) evidentemente
d) no momento em que

3.1 Esclarece o valor de cada um na estruturação do discurso.

4. Considera a seguinte frase: «Não sei se Bocage escreveu algumas poesias sobre as mesas do seu Café, mas é natural que o tenha feito.» (Is. 2-3)
4.1 Integra, na classe e subclasse a que pertencem, os vocábulos sublinhados.
4.2 Identifica:
a) a oração coordenada adversativa;
b) a oração subordinante;
c) as orações subordinadas substantivas completivas.
4.3 Refere a função sintáctica das palavras:
a) Bocage :
b) natural
c) o
5. A autora utiliza, repetidamente, os parênteses e as aspas.

5.1 Esclarece as circunstâncias que justificam a utilização dos referidos sinais auxiliares gráficos da escrita.


III
Resume o texto a seguir transcrito, constituído por duzentas e sessenta e duas palavras, num texto de setenta a cento e dez palavras.


As origens da introdução da Arvore de Natal em Portugal

Em Portugal, até meados do século XIX, a tradição do Natal tinha como centro a figura do Presépio. No entanto, finda a Guerra Civil de 1832-34, que opôs os Liberais aos Miguelistas, da Corte, a tradição da Árvore de Natal foi passando das elites para uma parte da população. Mas a grande difusão da Arvore de Natal foi no século XX, na década de 60, graças à revolução nos meios de informação e comunicação, como a televisão.
Altura em que também a figura do «Pai Natal», símbolo claramente economicista e materialista, começou a «ganhar terreno» ao Menino Jesus - única verdadeira razão pela qual se celebra o Natal, pois Natal significa nascimento; neste caso, é a celebração do nascimento de Jesus Cristo.
Com a ascensão ao Trono de Portugal da Rainha Dona Maria II, os hábitos da Corte Portuguesa, por altura do Natal, mudaram. Assim, em 1836, a Rainha casou com o Príncipe Ferdinand von August Franz Anton von Sachsen-Coburg-Gotha-Koháry, mais tarde, D. Fernando II, o Rei-Artista. Deste casamento nasceram muitos filhos, dois dos quais foram, mais tarde, os reis Dom Pedro V e Dom Luís I. Com a vinda para Portugal de Dom Fernando II, foi introduzida, na Corte Portuguesa, a tradição da Árvore de Natal. Dona Maria II ficou conhecida na História com o cognome de «A Educadora», tal era a sua preocupação com a educação dos seus filhos. O ambiente familiar assemelhava-se bastante a uma família burguesa no período do auge do Romantismo. Consta, segundo registos, que Dom Fernando II, na Noite de Natal, vestia-se de S. Nicolau e distribuía presentes aos seus filhos numa festa genuinamente familiar.

David Garcia, Jornal de Sintra, 25/12/2009 (adaptado)