28.12.11

As quatro portas do céu



O céu tem quatro portas.
A porta branca onde mora um velho chamado Inverno, a porta verde onde mora uma menina chamada Primavera, a porta amarela onde mora um rapaz chamado Verão e a porta dourada onde mora um homem chamado Outono.
O Inverno sai da sua porta branca com um saco cheio de maravilhas e verifica que a tinta da porta está um bocadinho esmurrada. Volta atrás a buscar uma trincha e conserta aquela pequena mancha. Depois segue, um bocado rabugento, e como não quer que o vejam, tira do saco uma embalagem de nevoeiro e espalha-o pelo caminho. Fica tudo cinzento e, embora esta não seja a sua cor preferida, sempre a acha melhor que os castanhos de mil e uma tonalidades que o Outono deixou atrás de si.
O Inverno, como já perceberam, não gosta de dar nas vistas, por isso sai no dia mais curto do ano, 21 de Dezembro, convencido de que ninguém dá por ele. E de facto, às vezes estamos tão entretidos a preparar o Natal que nem o sentimos.
Por onde passa, vai deixando a Natureza arrepiada. As árvores largaram as últimas folhas (algumas!, porque outras, chamadas de folha perene, nunca se despem da sua roupagem). Os bichinhos escondem-se nos seus abrigos onde guardaram comida para os meses frios. As formigas, por exemplo, são muito previdentes e fazem sempre isso. Há animais, como os ursos, que dormem durante a época em que não há comida. Metem-se nas suas cavernas e ali estão quentinhos a hibernar, a poupar energias, para não darem de caras com nevões e outras coisas de que não gostam. Há ainda os pássaros que, não podendo sobreviver ao frio, preferem ir passar esses meses para lugares mais quentes do planeta, para depois voltarem a casa, como nós fazemos no fim das férias.
É por isso que o Inverno é um bocado resmungão. Não encontra quase ninguém pelo caminho a não ser árvores despidas e bichinhos assustados. Às vezes encontra pessoas, mas não dá para conversar, porque elas vão à pressa para casa, embrulhadas nos seus agasalhos, a soprar bafo quente para as pontas dos dedos.
Irritado com esta falta de atenção, o Inverno tira do saco uma chuva torrencial, de que todos fogem, mas que é uma das suas maravilhas porque vai alimentar os rios e preparar a terra para mais tarde desabrochar.

Rosa Lobato Faria, As Quatro Portas do Céu, Ed. ASA



Notas:
esmurrada: danificada (como se tivesse levado murros).
trincha: pincel espalmado.
conserta: arranja (o substantivo conserto, com significado de arranjo, é homófono de concerto com o significado de execução musical).
perene: que não cai periodicamente; perpétua.
previdentes: acauteladas; precavidas.
hibernar: passar o Inverno em entorpecimento ou letargo.
resmungão: rabugento; rezingão.




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O Inverno é apresentado através da alegoria de um velho por ser:

  1. a última estação do ano
  2. muito frio
  3. desejado por todos

1.2. Menina, rapaz, homem e velho são personagens que representam:

  1. os membros de uma família
  2. a Natureza
  3. ciclo da vida

2. Pontua o texto apresentado, retirado da mesma obra, introduzindo-lhe as vírgulas ou outros sinais de pontuação necessários.