13.11.11

Uma encravelhação

Num serão destes, depois de uma combinação macaca, um amigo despedia-se pedindo-me que "fizesse as coisas de maneira a não colocá-lo numa situação chata". Reparando que era palavreado a mais, ele lembrou uma piada repetitiva de Jô Soares: "Não me comprometa...!".
Isto acontece tantas vezes – pelo menos na minha vida – que fui caçar aos dicionários, a ver se não tínhamos um simples verbo que desse conta do recado. Foi num instante, na página 565 do Grande da Porto Editora: encravelhar. É colocar alguém numa situação embaraçosa.
Acabou-se o pesadelo. Agora já podemos dizer apenas "Não me encravelhes." No pretérito também sabe bem: "Olha, obrigadinho – com aquela brincadeira encravelhaste-me bem encravelhado."
Quando se procura uma palavra num dicionário é impossível não ler as duas páginas abertas. É bom haver uma palavra para as coisas e pessoas que se encontram frequentemente (encontradiças). Encoquinhar é esconder uma coisa na cozinha. (…) Em vez de ficarmos deprimidos, podemos ficar encouchados. A Porto Editora diz que é de origem obscura e embora não exista a palavra francesa encoucher, fica-se como uma ideia de coxeio, de ficar na cama e na concha que bate bem com a depressão. É encouchante a quantidade de palavras que não conhecemos.

Por Miguel Esteves Cardoso
In jornal “Público”, Dezembro, 2009



Completa as afirmações que se seguem com a alínea que consideres adequada.

1. … fui caçar aos dicionários, a ver se não tínhamos um simples verbo que desse conta do recado.”
Um verbo que “desse conta de que recado” era, neste caso, um verbo que permitisse
a) não colocar o amigo numa “situação chata”.
b) substituir, com a mesma eficácia, a frase “Não me comprometa…!”, popularizada pelo humorista brasileiro Jô Soares.
c) confundir os destinatários por ser uma palavra totalmente invulgar.

2. No terceiro parágrafo do texto, o autor revela
a) alívio por ter encontrado o que procurava.
b) desagrado por não ter descoberto a palavra adequada.
c) ironia. Tinha encontrado um verbo com o significado que procurava mas com uma sonoridade no mínimo estranha.

3. Na última frase, a palavra “encouchante” é utilizada como sinónimo de:
a) espantoso.
b) preocupante.
c) deprimente.

4. O autor chega à conclusão que há inúmeras palavras no dicionário que não conhecemos. Neste texto, pelo tom do discurso e pelos exemplos apresentados, parece evidente que tal facto é atribuído:
a) à falta de cultura e falta de estudo da maioria das pessoas.
b) à quantidade de palavras que, embora façam parte do léxico, nunca são utilizadas e como tal são como que inexistentes.
c) à falta de consulta regular e sistemática do dicionário da língua.