9.11.11

Ética para um Jovem




Chegamos por fim ao instante de tentar responder a uma pergunta cuja expressão directa (porque indirectamente, e com rodeios, há muitas páginas que não falamos de outra coisa) já adiámos por demasiado tempo: em que consiste tratar as pessoas como pessoas, quer dizer, humanamente? Resposta: consiste em tentares pôr-te no seu lugar. Reconhecer alguém como semelhante implica acima de tudo a possibilidade de compreendermos a outra pessoa a partir de dentro, de adoptarmos por um momento o seu próprio ponto de vista. É algo que só de maneira muito fantasista e duvidosa posso pretender diante de um morcego ou de uma sardinheira, mas que em contrapartida se me impõe perante os seres, como eu próprio, capazes de manejar símbolos. Afinal de contas, sempre que falamos com outra pessoa o que fazemos é estabelecer um terreno no qual quem agora é "eu" sabe que se transformará num "tu" e vice-versa. Se não admitíssemos que existe qualquer coisa de fundamentalmente igual entre nós (a possibilidade de eu ser para outro o que o outro é para mim), não poderíamos cruzar uma palavra que fosse. Mas onde nos cruzamos reconhecemos também que de certo modo pertencemos a quem nos está diante e que quem está diante nos pertence... Isto, mesmo que eu seja jovem e o outro velho, mesmo que eu seja homem e o outro mulher, mesmo que eu seja branco e o outro preto, mesmo que eu seja idiota e o outro inteligente, mesmo que eu esteja cheio de saúde e o outro doente, mesmo que eu seja rico e o outro pobre. "Sou humano", disse um antigo poeta latino, "e nada do que é humano pode parecer-me estranho." Quer dizer: ter consciência da minha humanidade consiste em dar-me conta de que, apesar de todas as diferenças extremamente reais entre os indivíduos, eu estou de certo modo também dentro de cada um dos meus semelhantes. E, para começar, enquanto palavra...

Fernando Savater, Ética para um Jovem, Ed. Presença



O texto contém uma pergunta a que o próprio autor dá resposta. A partir dessa resposta, o autor argumenta em defesa da sua opinião.

1. Identifica a opinião.

2. Transcreve do texto as frases que consideres constituírem argumentos.

3. Uma das formas de reforçar a argumentação pode ser a citação de alguém que é muito considerado. Refere essa situação no texto.

4. Mostra que, no final do texto, o autor reafirma a sua opinião.