16.10.11

Um reino em perigo


No recinto interior do palácio situava-se a grande sala do trono da Torre de Marfim. Ali se realizavam as deliberações1 respeitantes ao futuro de Fantasia. (...)
Os quatrocentos e noventa e nove melhores médicos do reino de Fantasia encontravam-se ali reunidos e sussurravam ou cochichavam uns com os outros. Todos eles tinham examinado a imperatriz Criança e todos tinham tentado ajudá-la com o seu saber. Mas nenhum sabia como curá-la.
E o número quinhentos, o mais célebre de todos os médicos de Fantasia, estava já há algumas horas ao pé da paciente, e todos esperavam com ansiedade o resultado do seu exame.
A imperatriz Criança era – como o indicava o seu título – a soberana2 de todos os inumeráveis países do reino sem fronteiras de Fantasia (…). Ela era o centro de toda a vida de Fantasia.
E todas as criaturas, boas ou más, bonitas ou feias, alegres ou graves, loucas ou sábias, todas, mas todas só existiam porque ela também existia. Sem ela nada podia sobreviver, tal como um corpo humano não pode sobreviver sem coração.
Ninguém podia compreender bem o seu segredo, mas todos sabiam que era assim. (…) A sua morte seria o fim de todos, o fim do reino incomensurável3 da Fantasia. (...) De repente, fez-se silêncio na sala, e todos os olhos se viraram para a grande porta de batentes que estava a ser aberta. Cairon, o célebre e lendário mestre da arte médica, entrou na sala.
Era aquilo a que se chamava na antiguidade um centauro. Tinha figura de homem até às ancas, e o resto era o corpo de um cavalo. Cairon era um dos chamados centauros negros. À volta do pescoço, tinha uma cadeia com um grande amuleto de ouro, representando duas serpentes, uma clara e outra escura, que mordiam a cauda uma da outra, formando uma oval.
Todos os habitantes de Fantasia conheciam o significado daquele medalhão: era o distintivo do enviado da imperatriz Criança, que podia agir em seu nome como se ela própria estivesse presente. Toda a gente conhecia o nome desse distintivo: AURIN.
Mas muita gente temia pronunciar o nome desse sinal, e chamava-lhe por isso a «JOIA», ou ainda o «PENTÁCULO» ou simplesmente o «ESPLENDOR».
Um murmúrio percorreu a sala e ouviram-se alguns brados de admiração. Há muito tempo já que a «JOIA» não era confiada a alguém. Cairon bateu algumas vezes com os cascos no chão, até obter novamente silêncio, e depois disse em voz profunda:
— Amigos, não se espantem, pois vou usar AURIN durante pouco tempo. Sou apenas um intermediário. Em breve transmitirei o «Esplendor» a outro mais digno.
Reinava na sala um silêncio total.
– Não vou tentar disfarçar o nosso fracasso com palavras bonitas — continuou Cairon. — Estamos todos perplexos perante a doença da imperatriz Criança. Sabemos apenas que esta doença coincidiu com o aniquilamento4 progressivo de Fantasia. Não sabemos mais nada. Nem sequer sabemos se a ciência médica a pode salvar. Onde quer que possa estar a possibilidade de salvação, uma coisa é certa: buscá-la requer um explorador capaz de não retroceder5 perante qualquer perigo ou esforço. Numa palavra, um herói. E a imperatriz Criança disse-me o nome desse herói: chama-se Atreiú e vive no Mar das Ervas, para além das Montanhas de Prata. É a ele que confiarei AURIN enviando-o para a Grande Busca. E agora já sabem tudo.
E, ditas estas palavras, o velho centauro saiu da sala com grande ruído de cascos.

Michael Ende, A História Interminável


VOCABULÁRIO
1 Decisão
2 Que tem o poder
3 Enorme; que não se pode medir
4 Invulgar, estranho
5 Destruição
6 Andar para trás; recuar



I

1. Indica se as afirmações são Verdadeiras (V) ou Falsas (F).
a. A ação decorre na sala do trono da Torre de Marfim.
b. A imperatriz do reino é uma Criança.
c. Ela foi observada por quatrocentos e noventa e nove médicos.
d. Aurin era feita com a pele de duas cobras: uma branca e outra preta.
e. Nenhum dos médicos conseguiu curar a imperatriz.

2. Preenche a tabela com as palavras que te são dadas para caracterizares as personagens e indicares o local onde vivem.



3. Responde de forma clara, correta e completa às seguintes questões sobre o texto.
3.1. Como se chama o reino em perigo?
3.2. Por que motivo o reino está em perigo?
3.3. O que é um centauro?
3.4. O que simbolizava o AURIN?
3.5. Enumera os nomes usados para se referirem ao AURIN.

4. Identifica as figuras de estilo presentes nas frases seguintes.
4.1. «E todas as criaturas, boas ou más, bonitas ou feias, alegres ou graves, loucas ou sábias, todas (…)»
4.2. «Sem ela nada podia sobreviver, tal como um corpo humano não pode sobreviver sem coração.»

II

Escolhe uma das seguintes opções.

a. Redige a biografia de Atreiú.
Deverás:
• usar a informação que o texto te dá sobre ele;
• referir os seus feitos/atos heróicos para que a imperatriz o considere um herói;
• indicar se consegue ou não concretizar a missão atribuída pela imperatriz Criança.

OU

b. A Imperatriz Criança entregou também uma carta a Cairon para Atreiú. Imagina que és a imperatriz Criança e redige a carta que terá sido enviada a Atreiú.
Deverás:
• explicar a situação perigosa em que o reino se encontra;
• indicar a Atreiú o motivo por que o escolheu e pedir-lhe ajuda;
• explicar-lhe em que consiste a Grande Busca.