18.10.11

Tenacidade


Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito - um cágado.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha s novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já o tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa. (...)
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma vara perdida. (...)
E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
- Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte - a vontade. (...)
De facto, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.

Almada Negreiros, "O Cágado",
in Contos e Novelas, Ed. Estampa


Notas:
propícia: favorável; oportuna.
tenacidade: resistência; perseverança; vontade de vencer.
contrafeito: forçado; contrariado
árdua: penosa; custosa.



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O cágado já tinha desconfiado, da primeira vez, que o homem:

não reparou nele

lhe podia querer fazer mal

era teimoso

1.2. O homem não admitia que:

desconfiassem dele

houvesse mistérios

o cágado tivesse desconfiado

2. Divide o texto em partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. O homem tinha um temperamento singular

3.1. Justifica esta afirmação.

3.2. Que consequências resultaram deste temperamento?

4. Esta história serve para ilustrar uma ideia. Qual é a ideia que está a ser evidenciada?

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Complicar por complicar.