21.10.11

Sermão da Sexagésima

Lê um excerto do capítulo V do "Sermão da Sexagésima", pregado por Vieira na Capela Real, no ano de 1655, onde enuncia algumas das ca¬racterísticas que deve ter um sermão.

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. s O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: (...) porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte (...). É uma arte sem arte, caia onde cair. (...)
Assim há de ser o pregar. Hão de cair as coisas e hão de 10 nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. (...) Não está a coisa no levantar, está no cair: Ceciàil Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há de ter três modos de cair: há de cair com queda, há de cair com cadência, l is há de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão de vir bem trazidas e em seu lugar; hão de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão de ser esca¬brosas nem dissonantes; hão de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há de ser tão natural e tão desafetada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidü, cecidit.
Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? - O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. (...). Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras.(...). E quais são estes sermões e estas palavras do céu? - As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. (...). O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. (...) Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas.

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima

I

Completa com ideias do texto.

1. Segundo Vieira, o sermão, para produzir efeito, deve obedecer a três princípios:

___________; ___________; ___________; o primeiro diz respeito ao conteúdo, o segundo refere-se

________ e o terceiro ao modo como ________.

2. Explicita a comparação estabelecida entre o sermão e o céu.

3. Clarifica o sentido da frase "O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja."


II

1. Segundo António Sérgio (obra citada na bibliografia), no Sermão da Sexagésima, Vieira "não se con­denou a si mesmo, porque somente condenou as extravagâncias cultistas, de que jamais adoeceu; e nunca o vimos repreender o modo de pensar conceptista, que é o que lhe caracteriza a oratória".

Foi justamente neste capítulo que Vieira condenou as extravagâncias cultistas, tecendo uma crítica con­tundente sobre o estilo dos sermões daquela época.

Antes de proceder à leitura analítica deste capítulo, releia os artigos sobre a estética barroca insertos no seu manual e que antecedem o texto do sermão.

2. Acompanhe o raciocínio do orador, realizando as atividades seguintes:

2.1. Faça o levantamento das expressões ou frases que traduzem a opinião de Vieira sobre o estilo da época.

2.2. Explique como os juízos de valor expressos se adequam à questão de fundo que o orador está a desenvolver.

2.3. Explicite o sentido das expressões ou frases transcritas:

O semear não é assim. É uma arte sem arte.

Ver vir os tristes Passos da Escritura como quem vem ao martírio.

Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz?

2.4. Verifique como, mais uma vez, o orador, num breve parágrafo final, anula todas as provas que anteriormente acumulou.