19.10.11

O rapaz de Louredo

O avô Pedro não vive em Louredo. Mora em Matos, um lugar bem distante do nosso.
Há muito tempo que a mãe andava a dizer que precisava de lhe fazer uma visita. Mas há sempre tanto trabalho, tantas canseiras, que a visita foi sendo adiada. Hoje, logo de manhãzinha, pusemo-nos a caminho, a mãe com o Vítor ao colo, o Zé, a Fernanda e eu.
Foi uma caminhada longa, sempre a subir por caminhos estreitos e pedregosos. Andámos a pé bastante tempo. Íamos mais ou menos a meio e o Zé começou a choramingar. Os sapatos apertavam-lhe os pés. Para seguirmos viagem teve de ir descalço, não houve outro remédio.
Matos é um lugar pequenino. Fica num cimo, junto de penedos. Vê-se mesmo em frente a serra do Marão, que é muito extensa, bem diferente daquela manchazinha que aparece no mapa da escola.
Como sempre, o avô Pedro estava à varanda, sentado num banquinho, a apanhar sol. Por isso tem a cara e o pescoço tão tisnados1. Tinha, como é costume, a barba, branca – Olá, passarões! – disse quando nos viu.
– A sua bênção, avozinho – dissemos em coro, como a mãe se farta de nos recomendar.
– Que Deus vos abençoe e vos crie para a boa sorte – disse ele.
A Fernanda e a mãe foram dar uma arranjadela àquela casa velha e desarrumadíssima, com o soalho cheio de lixo, nódoas e caganitas de rato, a roupa espalhada pelos cantos, e a cama por fazer, com os cobertores enrodilhados. Penso que o avô só se deita entre os lençóis esticadinhos e a cheirar bem quando a mãe lá vai...
– Podia ser mais cuidadoso, meu pai. Se lhe acontece qualquer coisa grave e os vizinhos aparecem, o que é que vão dizer?!... – barafustou a mãe.
– Ai, o fogão está tão sujo, ó avô! Há quanto tempo não o limpa? – perguntou a Fernanda.
E ele a piscar-nos um olho e a sorrir:
– Deixa cá pensar... Foi... Sim, foi no dia de São Nunca à tardinha!
O avô Pedro está velhinho, não tem cuidado com a limpeza, mas nós gostamos muito dele. Há tempos a mãe pensou levá-lo para nossa casa. Se ele morasse em Louredo, sempre se distraía mais, comia melhor, andava limpo. Mas ele não concordou:
– Ora, ora... Cada mocho no seu souto! Não adianta começares com essa conversa. Se quiseres que acabe depressa, tira-me desta casa!
– Mas aqui sozinho...
– Quem te disse tal disparate? Eu nunca estou sozinho! Basta fechar os olhos por um instante e de repente esta casa fica cheia de gente. Vejo a minha mulher, converso com ela, vejo os meus filhos ainda pequenitos a brincar por esses cantos... A casa está sempre cheia de conversas, de
barulho. Eu nunca estou sozinho!
É claro que o avô Pedro sonha com coisas passadas há muito tempo!
Às vezes, ouvimo-lo falar sozinho, ou a rir. Uma vez, chorava. E nós, aflitos:
– Que foi, avozinho?
– Então ainda não sabeis da triste novidade?! Venho agora mesmo da corte2 das vacas. E sabeis o que vi? A vitela está esticada no estrume, fria como pedra. A vitela grande, a filha da Cabana, a vaca maior, está morta.
E eu a pensar fazer um bom dinheiro dela... Depois havia de comprar um arado3 novo, o que temos está tão desconjuntado... e mercava roupas para as crianças, e uns socos4 para mim... Eu a pensar dar um jeito à vida, e agora?!...
Ficámos calados. Lembro-me que, nesse dia, o avô estava sentado à varanda, era um dia de sol, e ele parecia bem arranjado, com a camisa e as calças lavadas que a mãe o obrigara a vestir. E calçava uns socos novos, de pau de amieiro, que o pai comprara na feira.
Mas o avô Pedro também sabe muitas adivinhas. Quando começa, nunca mais acaba, parece um fieiro de água a correr...
Nós, é claro, raramente acertamos, mas gostamos de ouvir. O avô, é certo e sabido, termina perguntando ao Zé:
– Ó melrinho, diz lá de que cor era o cavalo branco da tia Benedita?
Pensa bem, olha que não é o cavalo branco do Napoleão...
E o Zé, embatucado:
– Se fosse o do Napoleão, já sabia!

António Torrado, O rapaz de Louredo




VOCABULÁRIO
1 tisnado – queimado, moreno.
2 corte – curral.
3 arado – instrumento para lavrar os campos.
4 socos – chinelos de pau, socas.


I

1. Uma história começa quase sempre pela apresentação de uma situação inicial, a que se seguem o desenvolvimento e o desfecho ou conclusão. Das frases dadas, assinala com um círculo aquela que não faz parte da situação inicial desta história.
a) O avô Pedro não vivia em Louredo.
b) O lugar onde habitava era bastante distante da aldeia onde vivia o narrador.
c) A casa do avô estava muito desarrumada.
d) A mãe andava há muito tempo a dizer que era preciso visitá-lo.
e) A visita foi diversas vezes adiada devido à quantidade de trabalho.
f) Logo que começou o dia, o narrador, a mãe e os irmãos iniciaram o percurso rumo a Matos.

2. De acordo com a leitura do texto, indica quais as afirmações falsas e quais as verdadeiras e apresenta uma alternativa verdadeira para as frases falsas.
a) A caminhada até à casa do avô Pedro foi difícil mas curta.
b) O Zé teve de descalçar os sapatos porque lhe apertavam os pés.
c) Já iam no fim do percurso quando o Zé começou a choramingar.
d) Ao contrário do que era habitual, o avô estava à varanda sentado num banquinho.
e) A desarrumação da casa devia-se ao facto de o avô já ser bastante idoso.
f) Em determinada ocasião o avô começou a chorar porque tinha encontrado uma das suas
vitelas morta.

3. Identifica os interlocutores do primeiro diálogo.

4. A determinada altura o avô afirma: «Eu nunca estou sozinho!»
O que queria o avô dizer com estas palavras?

5. Transcreve do texto uma frase que comprove o facto de o narrador ser também personagem da história.

6. Caracteriza através de dois adjetivos a relação entre o narrador e o avó. Justifica a tua escolha.

7. Ao longo do texto o narrador caracteriza indiretamente o avô.
Escreve à frente de cada característica uma expressão ou uma frase, retirada do texto, que confirme que o avô era uma pessoa:
. idosa
. carinhosa
. sonhadora
. divertida


II

Lê o seguinte excerto do diálogo, retirado do texto.

«– Olá, passarões! – disse quando nos viu.
– A sua bênção, avozinho – dissemos em coro, como a mãe se farta de nos recomendar.
– Que Deus vos abençoe e vos crie para a boa sorte – disse ele. »

Achas que o princípio da cortesia foi respeitado pelos interlocutores? Justifica a tua resposta.


III

Após a visita à casa do avô, em Matos, o narrador voltou para Louredo, continuando a ajudar a mãe no duro trabalho do campo. Passado algum tempo, resolve então escrever ao avô, contando-lhe como está a decorrer a vida familiar e dizendo-lhe o quanto gosta dele.
Na carta, o neto tenta convencê-lo a vir visitá-lo nos seus anos.
Imagina que és o narrador e escreve a carta ao avó Pedro.

Deves respeitar o modelo da carta familiar:
.. Local/Data
.. Fórmula de saudação
.. Corpo da carta:
– introdução;
– desenvolvimento;
– conclusão
.. Fórmula de despedida
.. Assinatura