28.10.11

O Avô Jaime


O Avô Jaime ouviu o seu relato com muita atenção. Entretanto, acabaram de jantar e trataram de levantar a mesa; como havia pouca louça suja, decidiram que era melhor lavá-la (quer dizer: o avô lavava e Pedro limpava), para a cozinha estar arrumada quando D. Júlia chegasse, no dia seguinte.
Enquanto executaram este trabalho, não falaram do assunto. Pedro já começava a conhecer muito bem o avô, sabia que para ele havia sempre um tempo certo para todas as coisas. E, tal como calculara, quando se instalaram na sala, em vez de ligar a aparelhagem estereofónica ou a televisão, o Avô Jaime começou a falar:
- Bom. Sobre o que tu me contaste. É muito curiosa, essa associação que o Sr. Silveira faz: Zé Palha, moedas de ouro, muito dinheiro. Claro, não sabemos exactamente o que isso quer dizer...
Pois não, concordou Pedro, mas podia querer dizer que Zé Palha tinha muito dinheiro em moedas de ouro.
- Se tinha, isso é estranho - observou o Avô Jaime. - Hoje em dia, não há moedas de ouro em circulação. Ele podia arranjá-las, claro... ainda assim, custa-me a compreender. O Zé Palha parecia ter pouco dinheiro. É verdade que há gente tão avarenta, tão sovina, que nem usa o dinheiro que tem...
Pedro protestou:
- Ele não, avô. Era um tipo muito fixe. Gostava até de...
- Eu sei, eu sei. Era um homem generoso. Como se prova pelo presente que te deu. E é por isso que me custa acreditar...
Interrompeu-se enquanto se levantava e ia espreitar à janela. Lá fora já estava escuro e como as luzes do jardim não tinham sido ligadas, Pedro não entendia o que é que o avô queria ver - já que não podia ver nada. Passados alguns instantes, voltou para a sua poltrona e, ao reparar na cara intrigada do neto, explicou:
- Pareceu-me ouvir um ruído lá fora, mas foi com certeza impressão minha. Enfim, para voltar ao nosso assunto: custa-me acreditar que o Zé Palha tivesse alguma fortuna, e ainda menos em moedas de ouro. No entanto, podia ter algumas guardadas, talvez para deixar aos netos. E essa já é uma razão possível para alguém querer atacá-lo.
Calou-se e - oh, espanto! - ligou a televisão, usando o comando remoto.

João Aguiar, A Cauda do Diabo,
Col. Pedro e Companhia, Ed. Presença



Notas:
executaram: realizaram; cumpriram.
estereofónica: reprodução sonora com efeito espacial e direcional.
associação: conexão; ligação.
sovina: avarento; miserável.
generoso: franco; nobre.
remoto: distanciado; afastado.

1. Atenta no primeiro parágrafo, A palavra "ovo" designa uma relação de parentesco.

1.1. Escreve palavras que designem outras relações de parentesco consanguíneo.

1.2. Escreve palavras que designem relações de parentesco por afinidade,

1.3. A palavra "avô" aparece escrita, neste texto, tanto com maiúscula como com minúscula. Explica o motivo destes dois registos.

1.4. Tendo em atenção este parágrafo, quantas pessoas viviam em casa do Avô Jaime? Justifica a tua resposta.

2. No quarto parágrafo regista-se um discurso que tanto se aproxima do discurso indirecto como do discurso directo.

2.1. Inicia este parágrafo com travessão (-), ou seja, reescreve-o sob a forma de discurso directo, fazendo as adaptações necessárias.

3. No quinto parágrafo utiliza-se a dupla adjectivação - "avarenta" e "sovina" -, cujos termos são sinónimos, ou seja, as palavras mantêm entre si uma relação de sinonímia.

3.1. Observa os conjuntos de palavras propostos e define a relação existente entre eles:

a.

avarento/generoso

considerar/respeitar

interromper/reiniciar

b.

atenção/distracção

curiosa/interessante

intrigado/esclarecido

4. "Era um tipo muito fixe" e "Era um homem generoso".

4.1. Que informação sobre a personagem nos fornece o tempo verbal?

5. O texto apresenta elementos que indiciam pertencer a uma narrativa com carac­terísticas policiais. Indica, por palavras tuas, duas dessas situações.