7.10.11

Nós


1. Procede à leitura atenta da primeira parte do poema "Nós", de Cesário Verde, abaixo apresentada.

Nós
AA.de S. V.

I

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvamo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos batizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na City, que desterros!

Sem canalização, em muitos burgos ermos
Secavam dejeções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros arruamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
E todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de maio aos frios de novembro!

VERDE, Cesário, 2009. O Livro de Cesário Verde (uma seleção).
Porto: Porto Editora


Notas
1. planta herbácea.
2.testa.
3. carro de cavalos destinado ao transporte de pessoas; carruagem.
4. antiga carruagem de duas rodas e um só assento.
5. planta cujas sementes produzem um óleo usado na iluminação.
6. profusa; em grande quantidade.
7. doentes.


2. Comprova a natureza autobiográfica da composição a partir do levantamento de deíticos pessoais.

3. Partindo da análise dos tempos verbais utilizados nas primeira e última estrofes do poema, explicita a estratégia enunciativa concretizada no texto.

4. É possível identificar no poema três partes distintas, de acordo com o seu assunto:
a. localização espaciotemporal da situação narrada.
b. apresentação da cidade contaminada.
c. exposição das virtualidades do campo.
4.1. Identifica as estrofes que correspondem a cada um desses momentos, salientando o valor dos conectores que as articulam.

5. Que impressões se destacam da descrição do ambiente citadino? Comprova as tuas afirmações com elementos textuais.
5.1. Explica de que forma a referência aos grupos sociais dos "médicos", dos "padres" e dos "coveiros" (v. 23) contribui para acentuar a negatividade dessa descrição.

6. Comenta a expressividade do valor antitético dos versos "Pela manhã, em vez dos trens dos batizados, / Rodavam sem cessar as seges dos enterros." (vv. 17-18).

7. Refere as razões que determinaram o apreço do sujeito poético e da respetiva família pelo campo.
7.1. Transcreve uma expressão que evidencie a opinião que tem do espaço rural.

8. Indica o hiperónimo de que são hipónimos os vocábulos "Cólera" (v.2) e "sarampo" (v.6).

9. Identifica o modo e o tempo em que se encontra conjugada a forma verbal "tivéramos" (v. 6), justificando a sua utilização no contexto em que ocorre.