2.10.11

Minha linda jóia

Lê atentamente o texto que se segue e responde às questões formuladas.


17-5-71 Ninda

Minha linda jóia

O avião voltou a não vir, donde resulta que há quase 15 dias não tenho notícias tuas. Ainda tive a esperança insensata que ele chegasse ontem, domingo, o que não sucedeu. É realmente horrível esta falta de notícias, que me deixa desamparado como se me faltasse uma perna...
Entretanto a vida aqui decorre na sua triste monotonia habitual. Só a lua desapareceu de novo e as noites são escuras como breu. Como as lâmpadas que deviam iluminar o exterior estão todas fundi-das, não se vê um palmo adiante do nariz. (...)
A história lá vai. A mim parece-me realmente boa: oxalá me não engane. O primeiro caderno, feito e refeito vezes sem conta, deve estar pronto no fim do mês. Se se puder mandar daqui ou do Chiúme encomendas registadas, envio-to logo. Senão esperarei até estar de novo em Gago Coutinho para o fazer. Têm-me dado um trabalho imenso, sobretudo esta última afinação, e chego à hora de jantar cheio de dores de cabeça por levar o dia a penar na prosa. O principal tem sido mondar isto de adjetivos supérfluos, sacudir a árvore para só ficar o essencial. Eu não sei. Mas palavra que é a última tentativa que faço, estou farto de perder tempo com porcarias. Se esta saída para o mar não ficar boa, adeus minhas encomendas, e os outros que digam o que eu sinto confusamente e não sei exprimir.
O nascimento aproxima-se a passos largos! Vais ver que é uma coisa de uma simplicidade imensa — a gente deita-se e eles nascem. Palavra. Nascem e começam logo a protestar por estar cá fora. São giríssimos - e já inteligentes...
O que me tem maçado esta história! Nem para o exame de Anatomia espremi tanto as meninges! De manhã à noite a lutar corpo a corpo com as minhas inferioridades, as minhas limitações, as minhas deficiências. Só muito tarde compreendi que se deve ser humilde diante do próprio orgulho e duvidar sempre. Cada vez tenho menos certezas e menos ilusões, avanço literalmente às apalpadelas, por tentativas. As 30 páginas prontas (cerca de 30, um pouco menos) custaram-me mais do que tudo o que fiz até agora junto. Às vezes horas à volta de só uma palavra! E acabo, depois de me decidir, por não ter a certeza de que escolhi a melhor! Eu queria tanto que isto fosse a história do breve e triste país que é o nosso! E que me justificasse aos meus olhos sem nenhuma piedade por mim mesmo. Eu penso que ser-se português é uma fatalidade que se deve assumir com paciência...
Olha, eu gosto tudo de ti! Eu gostava que pusesses na casa aquela fotografia do nosso casamento que me agrada mais em que te estás a rir muito e eu de boca aberta, aparvalhado, como de costume de felicidade.

Muitos beijos do teu homem que te adora
António

E também para a Zezinha ou para o António


António Lobo Antunes, D'este viver aqui neste papel descripto Cartas da Guerra,
Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes (org.),
Dom Quixote, 2005 (texto adaptado e com supressões)




I

1. Relê o primeiro parágrafo do texto.

1.1. Assinala marcas do remetente e do destinatário desta carta.

1.2. Identifica o recurso estilístico utilizado para exprimir a dor provocada pela "falta de notícias".

2. Atenta, agora, nos parágrafos três a cinco.

2.1. Indica os dois assuntos que aí ocupam o remetente.

2.2. Explicita o sentido da metáfora "sacudir a árvore para só ficar o essencial."

2.3. Seleciona duas passagens do texto que provem:

a. o sofrimento do remetente perante o ato de escrita.

b. a tentativa, por parte do remetente, de convencer o destinatário da facilidade do parto.

3. Transcreve a frase do texto onde, na tua opinião, a nota que se segue deveria ocorrer, assinalando com asterisco (*) o vocábulo em que colocarias a chamada para essa nota.

Nota:

Arrancar (ervas nocivas) de junto dos cereais; limpar. Em sentido figurado, sig­nifica 'expurgar de tudo o que é prejudicial'.

II

1. Atenta no seguinte excerto: "(...) as noites são escuras como breu. Como as lâmpadas que deviam iluminar o exterior estão todas fundidas, não se vê um palmo adiante do nariz. "

1.1. Distingue a relação estabelecida pela conjunção destacada em cada contexto.

1.2. Substitui o segundo "Como" por uma conjunção ou locução de valor equivalente no contexto.

2. "Se se puder mandar daqui ou do Chiúme encomendas registadas, envio-to logo."

2.1. Substitui o marcador discursivo "Se" por "caso", procedendo às alterações necessárias.

2.2. Explicita as palavras que o pronome pessoal "o" substitui ("envio-to").

3. Identifica o tipo de ato ilocutório presente nos segmentos transcritos:

a. "Mas palavra que é a última tentativa que faço (...)”

b. "Eu queria tanto que isto fosse a história do breve e triste país que é o nosso!"

4. Redige uma frase onde tornes evidente o caráter polissémico da palavra "cabeça"'.