13.10.11

Expositor à força

Naquela noite Miguel não conseguia dormir e nem sequer chorar. Era como se lhe tivessem roubado um pedaço da sua alma, tão só e tão magoado se sentia.
No fim do dia seguinte o homem voltou e trouxe consigo a pintura, agora metida numa moldura dourada e farfalhuda. Pousou-a junto da parede, donde ressaltava tão alegre na riqueza das suas cores como o arco-íris ressalta das nuvens brancas.
- Agora vamos ensaiar, Miguel, disse o homem. Eu faço o papel duma pessoa que anda na rua. Põe-te ao lado do quadro e dá-te ares de artista.
Depois, apontando com o seu indicador gordo para uma mancha cor de fogo, perguntou:
- Que representa esta mancha cor de fogo, meu rapaz?
- Uma cor bonita, respondeu Miguel.
- Disparate!, berrou o homem. Não podes dar respostas sem sentido. Devias dizer, por exemplo: é um incêndio.
- Mas não é nenhum incêndio. É mentira.
- Mentira! Mentira! Porque há-de ser mentira? Uma mancha destas pode ser tudo o que quiseres. De resto, não importa se é mentira ou não, importa sim que vendas aborratada, percebes? (...)
Apontou então para uma mancha cor-de-rosa e perguntou:
- E isto, o que é?
- A nuvem onde nascem as pessoas boas, respondeu Miguel.
- E este borrão negro?
- A nuvem onde nascem as pessoas más, respondeu Miguel.
- Bravo!, exclamou o homem. Assim, sim! Toda a gente gosta de ouvir respostas extravagantes, à maneira dos poetas.
Miguel sentiu-se infeliz, mas (...) não se atreveu a contrariá-lo.
(...) Tens de aprender a sorrir modestamente, meio simpático, meio triste, para que as pessoas se enterneçam. Vamos experimentar.
Miguel esboçou sorrisos de todas as maneiras, embora tivesse muito mais vontade de chorar. Em certo momento o homem deu-se por satisfeito:
- Agora acertaste! Lembra-te bem deste último sorriso, que te pode render dinheiro. Vejo que és um rapaz inteligente.
Em seguida mostrou-lhe uma nota de dinheiro, comprida e azulada.
- É por cinco notas destas que tens de vender o quadro. Olha bem, para não te enganares. (...) Explica que levaste duas semanas a pintar o quadro.
- Levei muito mais tempo, retorquiu Miguel. E ainda não o acabei.
- Credo! (...) Não te atrevas a dizer tal disparate. Ninguém acharia graça a borrões desses se soubesse que levaram mais de duas semanas a fazer.
Na manhã seguinte Miguel encontrava-se numa rua curtinha, só de peões, que ligava a grande praça com a via central da cidade.

Ilse Losa, Miguel, Ed. Afrontamento



Notas:
farfalhuda: com exagero de ornatos; vistosa.
extravagantes: esquisitas.
modestamente: recatadamente; despretensiosamente.
enterneçam: comovam.
esboçou: delineou; deixou entrever



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Miguel não conseguia dormir, porque o quadro:

  1. não estava acabado
  2. tinha uma moldura feia
  3. ia ser posto à venda

1.2. O homem era:

  1. controlador
  2. opressivo
  3. afectivo

2. Presta atenção ao segundo parágrafo.

2.1. Que apreciação nos transmite a adjectivação da moldura?

2.2. Como é caracterizada a pintura dessa moldura?

3. Faz o levantamento das expressões que, ao longo do texto, vão marcando a pas­sagem do tempo.

4. Faz o levantamento de duas interjeições presentes no texto e interpreta o seu valor

5. Caracteriza com adjectivos o estado de espírito de Miguel ao longo da acção.

6. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a afirmação:

O homem pensou em tudo para vender o quadro bem e depressa.