18.10.11

Era o cágado



Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos. (...)
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de facto, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exactamente como uni simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revol¬ta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! O cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. (...) Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar... (...)
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente - o maior monte da Europa (...) Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto corno dantes. (...)
Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era - era o cágado.

Almada Negreiros, "O Cágado",
in Contos e Novelas, Ed. Estampa



Notas:
apoteose: homenagem grandiosa; glorificação.




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O primeiro parágrafo regista a ideia de que o homem, enquanto cavava:

fazia musculação

perdeu a consciência

robotizou-se

1.2. O primeiro parágrafo regista a ideia de que espaço e tempo são noções essenciais:

para dar significado ao que nos envolve

dispensáveis para cavar

de medida

2. Divide o texto em partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Presta atenção ao terceiro parágrafo.

3.1. Indica o nome que corresponde ao pronome pessoal presente na forma ver­bal pediu-lhe.

3.2. Que estado de espírito apresenta o homem?

3.3. Explica o que se terá passado para a pá ter desaparecido.

4. Tendo em conta todo o texto, o que significa "tinha esburacado de lado a lado".

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Muito se procura o que afinal está tão perto!