16.9.11

Um dia

Silvino nasceu no mesmo dia em que sua mãe, que se chama Eunice, completou dezassete anos. Mãe e filho nasceram a vinte e um de Março, o dia em que começa a Primavera.
O bilhete de identidade diz que o Silvino é filho de um tal Orlando da s Silva Oliveira. E mais nada sabe sobre seu pai.
- Eu gostava de o ver, pelo menos uma vez na vida. E gostava de lhe perguntar porque nunca me quis conhecer. Para mim, "pai" é uma palavra que não tem sentido nenhum. Afinal o que é um pai? E com a palavra mãe acontece o mesmo...
Jovem, bonita, solteira, desempregada e mãe, Eunice cansou-se de tratar de um bebé que chorava a qualquer hora do dia e da noite; mamava de três em três horas, sujava fraldas e precisava de ser lavado com água tépida, de tomar medicamentos a hora certa.
Meio ano depois Eunice chamou sua irmã, que era dez anos mais velha e disse-lhe:
- Natércia, eu não aguento mais. Esta vida não me serve. Quero conhecer coisas novas, descobrir o mundo. Não vou ficar amarrada dentro desta casa o resto da vida. Estou farta. Tomas conta do Silvino?
A Natércia disse que sim. Desde que o bebé nasceu, era ela que tratava dele a maior parte do tempo.
Eunice foi ter com um tio que morava em Paris. E por lá arranjou vários empregos. Telefonava de vez em quando a perguntar pelo seu Vininho, e a Natércia dizia-lhe que ele já gatinhava, que já se tinha em pé, que tinha dado os primeiros passos, que já dizia titi e vovó e que lhe ia mandar uma fotografia do menino no dia em que fez dois aninhos. E Eunice suspirava e dizia que um dia havia de ir visitar o seu menino. Um dia.
Depois deixou de telefonar e de escrever. (...)
Natércia suspirou fundo. Nesse dia teve a certeza que o menino que ela criara desde o nas-cimento continuava a ser seu, ninguém o viria buscar. (...) E o SAPO deixou de acreditar naquela mulher alta e esguia, com os dedos cheios de anéis, que uma vez por ano vinha bater em casa da sua tia e lhe dizia que era sua mãe, que gostava muito dele, havia de o levar para junto de si quando tivesse um apartamento maior.
(...) No dia em que eles partiam para Vendas Novas, sobrinho e tia cumpriam o ritual. Mesmo que chovesse torrencialmente. A tia Natércia dizia:
- Hoje não me apetece jantar em casa. (...)
- Cavalheiro há, mas não tem dinheiro... Riam-se. Vestiam-se bem, perfumavam-se. E saíam de casa de mãos dadas. Como o restaurante chinês ainda ficava longe, caminhavam sem pressas, calados, de mãos dadas. Felizes.

António Mota, Fora de Serviço, ÂMBAR Ed.



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. As datas de nascimento são referidas por:

  1. estarem registadas nos B. I.
  2. ser Primavera
  3. indiciarem uma estreita ligação

1.2. Silvino teve uma mãe:

  1. biológica e outra de criação
  2. que era a tia
  3. que nunca o tratou bem

2. Transcreve do quarto parágrafo a expressão que caracteriza Eunice de forma directa.

3. Selecciona situações que ilustrem a função sintáctica de sujeito, segundo as indicações:

simples

subentendido

composto

inexistente

4, Indica qual é o sujeito da forma verbal "começa" na expressão: "... o dia em que começa a Primavera,"

5. Transcreve do oitavo parágrafo:

5.1. a expressão que reflecte a passagem do tempo de forma precisa:

5.2. expressões que reflectem a passagem do tempo de forma imprecisa:

6. Refere a frase do texto que antecede este excerto.

Por acaso não há nesta casa um príncipe que me queira convidar a sair esta noite para irmos comer arroz xau-xau e o prato trinta e cinco do restaurante chi­nês? Depois podemos ir ao cinema ver um filme levezinho...

7. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase final do texto:

Felizes.