28.9.11

Solidão partilhada


Até o nome era esquisito. Quando chegou, andavam os meus filhos entusiasmados com a estória do Kurika, de Henrique Galvão.
- Como é que querem chamar-lhe?, perguntou a mãe.
- Kurika, responderam os rapazes.
E assim ficou: Kurika, nome de leão. Que, diga-se de passagem, ele imitava. Não que soubesse, embora parecesse que sim. Pelo andar, pelo rosnar que pendia para o rugido, por um não sei quê que lembrava a majestade leonina.
- Kurika!
Ele erguia a cabeça e deixava-se ficar, as patas dianteiras cruzadas, como um leão sentado no seu trono imaginário. (...)
Mais tarde, na praia, sempre que nos lançávamos à água ele ficava agitado. Mas mantinha-se em terra enquanto a minha mulher lá estivesse. Assim que ela vinha nadar connosco, logo ele se lançava à água, passava-lhe à frente e procurava empurrá-la para a praia. Por mais esforços que fizéssemos para ele a deixar em paz, ele não desistia. Nós podíamos ir pelo mar dentro, a dona não. Não queria perder a mãe outra vez. (...)
Depois do meu problema de coração, o cão começou a olhar-me de outro modo. Talvez tenha compreendido que, tal como ele, eu já não tinha o mesmo ritmo. O certo é que as nossas relações mudaram substancialmente. Não que ele tivesse passado a considerar-me seu pai e eu, a ele, muito menos meu filho. Cão é cão. Mas de certo modo fomos ficando mais próximos, diria até mais companheiros.
Ele vinha deitar-se ao pé de mim sempre que eu estava a ler, a escrever, ou simplesmente a ver televisão. E à hora da refeição foi junto à minha cadeira que ele passou a enroscar-se, cada vez com mais frequência.
Eu gostava. Comecei até a ter um certo orgulho nisso e a sentir uma íntima satisfação com os ciúmes que essa atitude do cão provocava nos restantes membros da família.
Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada. Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão.
Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro. A tal ponto que certa vez o meu filho do meio me perguntou o que é que estava a dizer.
- Não estou a dizer nada, respondi.
- Se calhar foi o cão.
- Então o cão agora fala como eu?
- Não, mas resmunga como tu.

Manuel Alegre, Cão Como Nós, Publ. Dom Quixote


Notas:
esquisito: raro; elegante; extravagante; impertinente.
estória; narrativa; grafia antiga de história.
que pendia para o rugido: que se assemelhava ao rugido.
majestade: grandeza suprema; imponência.
substancialmente; fundamentalmente; de modo substancial; profundamente.
frequência: repetição amiudada de qualquer acto.
essencial: importante; indispensável





1. O texto apresenta três momentos diferenciados, delimitados pelas reticências.

1.1. Sintetiza cada um desses momentos.

1.2. Que ideia traduzem as expressões iniciais da segunda e terceira partes?

2. "Até o nome era esquisito."

2.1. Que informações transmite esta frase ao leitor?

2.2. Nesta primeira parte do texto, detecta uma palavra cognata de "leão" e pro­cura registar outras de que te lembres ou que encontres no dicionário.

3. Que acções mostram que o cão se aproximou do dono?

4. O diálogo final entre o narrador e o filho exemplifica um aspecto já anteriormen­te referido. Explica o sentido desta afirmação.

5. Justifica o título atribuído ao texto.