18.9.11

Rembrandt


A manhã estava fria, enevoada, bastante desagradável. Cornélia abafou-se com uma capa grossa antes de sair do moinho. Tinha que ir entregar uma saca de farinha a casa da família Steen e nenhum dos nove filhos a podia ajudar. Os sete mais velhos já trabalhavam. O mais novo ainda era muito pequenino e o s seu Rembrandt estava na escola. Quando pensava nele quase sufocava de orgulho. Os mestres gabavam-lhe a esperteza e a habilidade para o desenho. Mas tudo o que pudessem dizer acerca do oitavo filho ainda era pouco. Ela sabia que o rapaz era muito, mas muito inteligente!
"Poucos homens neste mundo têm uma cabeça como a dele", pensava. "E as mãos? Uma maravilha." (...)
Entretida com os seus pensamentos, caminhava devagar ao longo do canal. O chão húmido dificultava-lhe a marcha, porque a lama aderia às solas. Ao avistar a fachada solene e escura da universidade sorriu. Vinha gente de toda a parte para estudar ali. Senhores ricos e importantes!
Rembrandt também havia de entrar no mesmo edifício pela porta da frente. E poucos anos depois também seria rico e importante. (...)
O mestre observava-o pelo canto do olho, mas não compreendia aquela fúria, aquela expressão desvairada. Por que motivo parecia arrebatado numa espécie de loucura ao misturar pós com gema de ovo e óleo de linhaça?
Nunca tinha tido um aluno assim, mas orgulhava-se dele. A experiência dizia-lhe que havia de passar à história como um grande pintor. (...)
Rembrandt partiu, com a bênção do mestre e da família, para o atelier de Pieter Lastman, que nessa época deslumbrava a Holanda com as suas obras. Quando entrou no atelier, quedou-se maravilhado. Mas não eram as cenas nem as figuras que quase lhe faziam perder a respiração. Era a luz. A luz que se desprendia das telas e o contraste profundo entre o claro e o escuro.
-Vim parar ao sítio certo. Aqui encontrarei o meu caminho...

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Histórias e Lendas da Europa, Ed. Caminho


Notas:
Rembrandt nasceu em 1606 e, ao contrário de outros pintores, conheceu a fama muito cedo. Em apenas seis meses, aprendeu a técnica claro-escuro que Lastman levara de Itália. Estes dados ajudam a uma melhor compreensão dos aspectos ficcionados da sua biografia.

desvairada: exaltada; alucinada.
arrebatado: extasiado.
quedou-se: parou.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A expressão "o seu Rembrandt estava na escola." deixa transparecer:

indiferença

a inteligência de Rembrandt

a preferência por Rembrandt

1.2. O que mais maravilhou Rembrandt no atelier de Pieter Lastman foi:

a preparação das tintas

a técnica claro-escuro

os quadros

2. Divide o texto em duas partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Atenta no terceiro e no quarto parágrafos.

3.1. Interpreta o sorriso da mãe.

3.2. O que significa "entrar... pela porta da frente"?

4. Duas pessoas foram importantes para que Rembrandt fosse um grande pintor.

4.1. Esclarece a importância da mãe.

4.2. Esclarece a importância do mestre.

5. Reescreve o sétimo parágrafo, dando continuidade ao novo início apresentado. Se Rembrandt partisse.com a bênção

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Ser excepcional.