6.9.11

Ângela


Ela era a pessoa mais bonita que ele já vira em toda a sua vida. Os seus olhos grandes e meigos eram da cor de líquenes molhados pela chuva, delimitados por pestanas escuras que reviravam para trás, e embora ela fosse uma pessoa crescida, não era nada ameaçadora. Estava só ali deitada a aproveitar o Sol, sossegada, calma e descontraída, com as mãos juntas atrás da cabeça.
– Não fujas, não te vou morder – disse ela. – Como te chamas?
– S… Seymour. – A atrapalhação de dizer em voz alta aquele nome pretensioso, que lhe assentava tão mal. Devia pertencer, pensou ele, a um homem de negócios de meia-idade com um fato cinzento e uma pasta.
– É bonito – disse a rapariga. – Tem uma certa classe. Eu chamo-me Ângela, mas se quiseres podes chamar-me Angie.
O seu cabelo comprido, a que o Sol dava um halo, parecia composto de ouro fino e fios de prata. Ângela, Angie, Anjo…
– Ouve, Seymour, queres ser meu amigo a sério e fazer-me uma chávena de café? – disse o anjo com preguiça. Encontras tudo ali dentro daquela porta, embora pareça um celeiro, não é, é a minha casa.
Começou a tirar a acetona e o algodão de um cestinho cor-de-rosa e começou a tratar as unhas. Não sabendo como recusar, Seymour afastou-se com relutância e subiu os dois degraus, entrando numa divisão extremamente desarrumada. A parede oposta continha um velho guarda­ roupa horroroso com um espelho manchado pegado à porta e uma cama por fazer cheia de roupa. Na zona mais próxima havia um fogão a gás, uma confusão de pequenos armários e um lava-loiças. Era difícil encontrar canecas no meio de toda aquela porcaria, era difícil encontrar fosse o que fosse.
Encheu uma cafeteira eléctrica e ligou-a para que fervesse, desencantou duas canecas lascadas da pilha do lava-loiça, encontrou um frasco de café instantâneo e açúcar solidificado num açucareiro de loiça azul sem tampa. Havia um pequeno frigorífico a um canto, que continha apenas umas latas de cerveja, iogurte de chocolate e um pacote de leite duvidoso. Pôs tudo muito arrumadinho numa bandeja e transportou-a lá para fora.
– És uma verdadeira estrela! Nem toda a gente consegue fazer um bom cafezinho, mas tu és um deles! – disse Angie, de uma forma tão calorosa e agradecida que Seymour corou, pois não estava habituado a louvores de qualquer espécie. – Não fiques a beber de pé, agarra numa almofada e senta-te. Faz como se estivesses em casa. Fala comigo. Se há coisas que gosto é ter alguém com quem conversar enquanto arranjo as unhas. Embora tu não sejas lá muito falador, pois não? Não faz mal, podes ficar aí sentado a ouvir e eu moo-te os ouvidos. Sou muito boa nisso, dizem.
Ele observava, fascinado, enquanto ela arranjava as unhas. Eram compridas e perfeitamente modeladas e era óbvio que tinha muito orgulho nelas, afastando as mãos como uma dançarina do templo. Modelava cada unha com uma lima com cabo de madrepérola, depois começava a aplicar o verniz. Preto azeviche. Seymour nunca tinha visto alguém usar verniz preto antes. As suas roupas também eram fora do vulgar. Usava uma pequena saia de seda e uma blusa que parecia um colete, só que inesperadamente feita de renda prateada. Ela inclinou-se para apanhar uma tesoura de manicura que caíra e Seymour quase deixou cair a caneca do café. Tinha uma tatuagem – um pequeno cavalo azul com asas abertas – gravada num ombro. Nunca antes conhecera ninguém com uma tatuagem, sobretudo uma rapariga.


Robin Klein, Voltei para te Mostrar que Podia Voar,
tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra,
(texto com cortes) Publ. D.Quixote




I

1. Completa este enunciado com uma das três hipóteses sugeridas (A, B, C).
O essencial desta narrativa assenta
A. no encontro casual entre Ângela e Seymour.
B. no deslumbramento de Seymour pelo aspecto de Ângela.
C. no carácter tímido de Seymour.

2. Delimita no texto o momento de descrição do interior da casa de Ângela.
2.1 Indica o aspecto global do espaço.
2.2 Os pormenores apresentados confirmam a impressão global transmitida? Justifica.
2.3 Qual o modo de observação de Seymour? Fixa-se num ponto determinado? Observa à sua volta?
2.4 O narrador dá-nos ou sugere-nos a impressão de Seymour sobre o que vê? Justifica a tua resposta.

3. Neste primeiro encontro entre Ângela e Seymour esboça-se o retrato da rapariga.
3.1 Demonstra que os elementos de pormenor que o texto te apresenta, a nível de características exteriores (físicas, modo de vestir…), estão de acordo com estas duas características dominantes de Ângela: é bonita e invulgar.
3.2 A descrição que é feita do espaço em que vive contribui, de alguma forma, para o retrato de Ângela? Justifica a tua opinião.
3.3 Completa o esboço de retrato que estamos a construir com os traços de carácter que te são sugeridos por palavras ou atitudes da rapariga.


II

Apesar de não lhe ter prestado, pelo menos aparentemente, muita importância, também Ângela deve ter ficado com uma imagem de Seymour.
Com base em elementos que o texto te fornece, redige, em nome de Ângela, o retrato que ela faria do rapaz.