7.8.11

S. Leonardo de Galafura1

A proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto2,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos3
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo4 avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo5 a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho6!

Miguel Torga, Diário IX, 1964.



Notas:
1 S. Leonardo de Galafura é uma capelinha que existe no alto da montanha, na freguesia com o mesmo nome, no concelho da Régua (Vila Real). Vista do sopé da montanha, dá a imagem de navegar no espaço.
2 mosto – sumo da uva antes de se completar a fermentação.
3 socalco – espécie de degrau nas encostas, suportado por um muro, para se cultivar. Na região do Alto Douro é em socalcos que se cultiva a vinha.
4 rabelo – embarcação típica, usada no rio Douro para transporte do vinho do Porto, que tem por leme um remo muito comprido e grosso.
5 sorvo – gole; trago; sorver – absorver; aspirar.
6 rosmaninho – planta aromática, de flores violáceas designada por alecrim.



1. S. Leonardo navega em direcção ao cais divino.

1.1. Que meio de transporte utiliza?

1.2. Como é caracterizado o espaço que tem de percorrer?

1.3. Porque é que não vai muito satisfeito, sendo santo?

2. O poema revela uma estrutura circular. Distinga as partes lógicas em que está estruturado e indique o assunto de cada uma.

3. Para exprimir de forma artística a viagem, foram utilizados muitos recursos expressivos. Destaque:

3.1. a forma como a construção das estrofes sugere a irregularidade do espaço a percorrer;

3.2. a expressividade da alternância de vogais abertas e fechadas, bem como das aliterações;

3.3. o valor do aspecto verbal;

3.4. o domínio da coordenação;

3.5. a importância das metáforas «navio de penedos», «doce mar de mosto», «ondas/Da eternidade», «cais humano», «cais divino», «charcos de luz», «Rasos, todos os montes».

4. O texto é uma alegoria.

4.1. Que se pretende enaltecer?

4.2. É este um texto telúrico? Justifique.