18.8.11

Fifty-fifty


Ser feliz, afinal, não está nas nossas mãos. Está nos nossos genes! Depois de muitos anos a tentar perceber se somos mais influenciados pelo ambiente em que vivemos ou pelo código genético que herdámos, um grupo de cientistas norte-americanos parece ter descoberto a fórmula mais equilibrada: fifty-fifty!
Saber a quem devemos o nosso geniozinho, a capacidade de amar os outros, a tendência para engordar ou emagrecer e, até, de onde vêm vícios como o café, os cigarros, os com-primidos para dormir e outras drogas, tem sido uma das maiores batalhas científicas deste século. Os americanos chamam a esta pressão constante a battle over nature and nurture, e nós podemos falar de um interminável braço-de-ferro entre natureza e ambiente. Por incrível que pareça, neste despique ganha, quase sempre, a natureza: aquilo que herdámos dos nossos pais e dos pais dos nossos pais.
Se vingarem as novas teorias dos eruditos da biologia molecular que passaram duas décadas enfiados em gabinetes forrados com documentos recolhidos nos laboratórios onde pesquisaram o DNA de milhares de humanos, fica estabe¬lecido que a nossa personalidade é, à nascença, muito mais do que um esboço. Ao contrário daquilo em que quase todos acreditámos, em certos aspectos os nossos pais, avós, professores e amigos podem influenciar tanto o nosso carácter como influenciaram a cor do nosso cabelo. Pior: 80 por cento da nossa felicidade, sabe-se agora, pode ser ditada pelos genes. Oitenta por cento, leram bem!
Mas há mais: 60 por cento daquilo a que os americanos chamam assertiveness (e podemos traduzir pela nossa capacidade de afirmação) também já estava definida antes do dia em que nascemos e conhecemos aqueles que, até agora, imaginavam poder vir a desenhar, com todo o cuidado, este e outros traços do nosso carácter. Dizem os especialistas citados pela revista Life que a sensibilidade para apreciar (ou ser tocado por) uma obra de arte também está inscrita na nossa matriz genética. Não decorre, portanto, de se ter um pai ou uma mãe viciados que se esforçaram por nos levar a exposições e concertos assim que saímos do berço.
Posto isto, ficamos todos sem chão. Cabe-nos, talvez, meditar sobre estas descobertas e construir um patamar mais seguro, adequando os comportamentos à chamada "predis-posição genética" que nos condiciona desde a primeira hora do primeiro dia. (...)
O que parece adquirido é que, tal como as mãos, os pés e o cérebro, a base da nossa personalidade também está formada à nascença.
David Allison, cientista nova-iorquino, alivia o peso da sentença e esclarece que "tal como a tendência para engordar ou ficarmos deprimidos, o carácter é potenciado pelo nosso código genético, o que não quer dizer que seja inalterável. É simplesmente mais difícil de mudar do que até agora imaginávamos, mas é possível".
Obrigada, dr. Allison.

Laurinda Alves, "Ser Feliz", in Linhas Cruzadas, Uma Antologia de Contos PT,
Ed. do Gabinete de Comunicação da Portugal Telecom


Notas:
genes: partículas cromossomáticas que condicionam a transmissão e a manifestação dos caracteres hereditários.
a battle over nature and nurture: uma luta entre natureza e educação.
braço-de-ferro: acto de medir forças.
eruditos: cultos; sabedores; conhecedores.
personalidade: carácter; conjunto de características que definem a individualidade de cada pessoa.
patamar: espaço no topo de cada lanço de escadas; espaço de entendimento (fig.).
predisposição: aptidão; tendência natural.

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Sabe-se agora que a nossa personalidade é influenciada pelos:

avós e amigos

professores

nossos genes

1.2. À nascença, a nossa personalidade é muito mais do que um esboço, porque está:

pouco determinada

muito determinada

nada determinada

2. Divide o texto em duas partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Na parte de reflexão do texto é referido que esta "sentença" nos deixa "sem chão".

3.1. Explica o sentido da expressão e dá a tua opinião sobre o assunto.

4. Justifica o motivo do agradecimento ao Dr. Allison?

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Ser feliz também está nas nossas mãos.