8.7.11

Sonhos e responsabilidades

Tondela, 15 de Setembro de 20...

Estou de regresso. Trouxe-me a carreira noturna. Que extraordinária cidade esta! Dentro do autocarro quase deserto, prestes a imobilizar-se no terminal, instalou-se novamente em mim a certeza de que Tondela ganha em ser vista de noite, toda ela contornos e vultos pardacentos. A casa do meu padrinho não dista mais de meia dúzia de passos da praça principal. Conheces o meu padrinho? Acho impossível que nunca tenhas ouvido falar dele. Homem temperamental, mas sem energia. Suspiros e trejeitos de contrariedade em vez de reações coléricas. Deixa-me fazer aquilo que bem me apetece. Lá no fundo, acho que não desgosta de me ter em casa dele. E eu prefiro esta solução. Os meus pais, como sabes, vivem só a três quilómetros do centro da vila, mas seria para mim uma contrariedade enorme ter de morar com eles.

As aulas começaram há duas semanas. Ainda não há muito para contar. Regresso precisamente agora do primeiro ensaio do grupo de teatro. É verdade, senti vontade de repetir a dose! E isto apesar das desventuras do ano passado. Temos um monitor novo, este ano. Sobre o seu talento, ainda não te posso dizer nada. Já quanto a reputação, temos homem! Ainda antes de o conhecer, tinham-me chegado aos ouvi­dos numerosas histórias a seu respeito, diga-se de passagem que nem todas abonató­rias. Que ele fez isto aqui e aquilo acolá, que tem este feitio assim e assado, que é uma péssima influência, que é um excêntrico... E assim por diante. Uma das coisas que mais chocam as boas consciências locais é que este Ponziani (é o nome dele) se vai encarregar também dos juvenis da equipa de basquetebol local. Serão o teatro e o basquetebol compatíveis? Muitos duvidam. Quanto a mim, espero para ver. (...)

8 de Outubro

(...) Os ensaios são um espetáculo digno de se ver. Muito se grita, corre, esbraceja, pula, declama, discute por ali. E nem sempre aquilo que fazemos parece ter a ver com teatro. Por vezes, passam por aquele espírito as ideias mais extraordiná­rias. Por exemplo, uma das suas manias é persuadir-nos a trazer de nossas casas objetos de uso quotidiano, e dar-lhes novos usos. E lá aparecemos nós com os objetos mais extraordinários nas mochilas: chaves de fendas, bebedouros de pás­saros, escovas, funis, peças de dominó, tacos de hóquei... (...)

É costume, depois do fim do ensaio, ficarmos todos juntos durante um bocado a conversar. Só o próprio Ponziani se esquiva, alegando qualquer afazer. (...) Vamos para um café e falamos de várias coisas. Também do ensaio, mas não só do ensaio. Às vezes, aquilo que me parece é que perdemos a capacidade de viver o dia-a-dia, durante cada ensaio, e que aqueles momentos são necessários para voltarmos a assentar os pés na terra. Mas pode ser que isto não faça qualquer sentido, pois por vezes sinto que é durante o ensaio que me sinto mais próximo da vida. Não sou capaz de explicar isto por escrito, mas tentar faz-me bem.

Sabias que a Rute também está no grupo, este ano? (...)

15 de Novembro

Que todos os diabos o carreguem! É um verdadeiro tirano. Pior: nem para tirano tem categoria. Não tem a mais pequena noção daquilo que faz. Não passamos de marionetas nas suas mãos. Os ensaios decorrem de maneira caótica e tumultuosa. Progressos, nem vê-los! Houve já três desistências. E ainda estamos em Novembro!

Mas sabes o que me irrita mais? É a importância que tudo isto assume para mim. Como se ele o merecesse. Como se isto o merecesse. Por mais incompetente que seja, ele conseguiu motivar-nos, conseguiu convencer-nos de que aquilo que fazíamos importava para alguma coisa. Culpo-o ainda mais por causa disso. Criou expetativas, e agora não lhes dá seguimento. Que o diabo o leve!

(...) Tenho passado muito tempo com a Rute. Acho estranho que ela procure a minha companhia. Não faço nada para a encorajar. Será que ela se interessa por mim? Romanticamente, quero eu dizer. Nesse caso, a sua atitude é bizarra. Critica-me fre­quentemente, e sem nenhuma gentileza. (...) Às vezes tenho vontade de convidar a Rute lá para casa. Mesmo sabendo que não iríamos fazer nada que não fizéssemos no café. Não acho que o meu padrinho se importasse. Mas, afinal, quem sabe? Ele, às vezes, tem reações inesperadas. Não me posso dar ao luxo de o pôr contra mim. Nada seria pior do que ter de sair daquela casa. Voltar a viver com os meus pais, dia após dia, ter de responder às perguntas do costume, num tom entre a recriminação e o ceticismo, sobre a escola e sobre o que tenciono fazer na vida - tudo menos isso. (...)

Alexandre Andrade, "Sonhos e responsabilidade em Tondela",

in Ficções, n.° 16, Caminho, 2007 (texto com supressões)



I

1. Sublinha as expressões que provam que as páginas de diário que acabaste de ler são peculiares, uma vez que quem o escreve se dirige a uma 2.a pessoa - o próprio diário, encarado como confidente.

2. Especifica as circunstâncias em que o autor deste diário está de regresso a Tondela.

3. Muitas páginas deste diário são dedicadas ao teatro.

3.1. Sublinha a passagem em que o autor mostra que a sua experiência anterior, neste domínio, não terá sido muito agradável.

3.2. A fama do novo monitor do grupo não é das melhores. Qual é a atitude do autor do diário em relação a esta situação?

4. Relê o excerto relativo ao dia 8 de Outubro.

4.1. Qual é o efeito de sentido da enumeração presente na frase "Muito se grita, corre, esbraceja, pula, declama, discute por ali."

4.2. Imagina o que se poderá fazer num ensaio de teatro com os objetos que Ponziani pedia aos alunos/atores para trazerem de casa.

4.3. Explica, por palavras tuas, o efeito que os ensaios têm sobre o autor do diário.

5. Atenta no excerto do dia 15 de Novembro.

5.1. Identifica o tipo de atos ilocutórios predominante nos dois primeiros parágrafos e justifica a sua utilização.

5.2. Qual te parece ser o papel de Rute na vida do autor do diário?

6. Explica por que razão o autor do diário prefere a casa do padrinho à dos pais.

II

1. Assinala os deíticos presentes no excerto "Que ele fez isto aqui e aquilo acolá (...)" e classifica-os em função daquilo a que fazem referência - pessoas, tempo, espaço.

2. Encontra, para cada item da coluna A, a letra da coluna B que lhe corresponde.

A

1. O sujeito da frase "senti vontade de repetir a dose!" é...

2. Nos excertos "Mas pode ser que isto não faça qual­quer sentido..." e "Não sou capaz de explicar isto...", o pronome destacado é...

3. Na frase "Como se ele o merecesse.", o elemento destacado é...

4. Na exclamação "Que o diabo o leve!" há...

5. O verbo da frase "a sua atitude é bizarra." é...

B

transitivo direto.

um determinante e um pronome pessoal.

um determinante artigo definido.

um deítico.

copulativo.

nulo subentendido.

um pronome demonstrativo.

nulo indeterminado.

dois determinantes.

3. Atenta nas seguintes frases do texto:

"Trouxe-me a carreira noturna. "

"Temos um monitor novo..." (

3.1. Explicita o sentido dos nomes assinalados.

3.2. Utiliza-os em duas frases em que apresentem sentidos diferentes dos das frases apresentadas.

4. O registo usado neste texto, como nos diários pessoais em geral, é predominantemente informal.

4.1. Assinala no texto três expressões de cariz popular: duas no segundo parágrafo e uma no último.

4.2. Transforma-as, utilizando um registo mais formal.

4.3. Reescreve a frase "Só o próprio Ponziani se esquiva, alegando qualquer afazer." , substituindo os vocábulos assinalados por outros de registo menos formal.