26.7.11

O Cego e o Mealheiro

Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantia de moedas. Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro de uma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo de uma figueira. Ele lá sabia o lugar e, quando ajuntava outra boa maquia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro. Um vizinho espreitou-o, viu onde é que ele enterrava a panela e foi lá e roubou tudo. Quando o cego deu pela falta ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo, para ver se arranjava estrangeirinha, para tornar a apanhar o seu dinheiro. Pôs-se a considerar quem seria o ladrão e achou, lá para si, que era por força um vizinho. Tratou de vir à fala, e disse-lhe:
- Olhe, meu amigo, quero-lhe dizer uma coisa muito em particular, que ninguém nos oiça.
- Então que é senhor vizinho?
- Eu ando doente e isto há viver e morrer; por isso quero-lhe dar parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há-de ficar tudo para vossemecê, que sempre tem sido bom vizinho e me tem tratado bem.
Ainda tenho aí num buraco mais umas peças e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.
O vizinho ouviu aquilo e agradeceu-lhe muito a sua atenção e, naquela noite, tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro debaixo da figueira, para ver se apanhava o resto das peças ao cego. Quando bem entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e trouxe-a para casa e, então, é que se pôs a fazer uma grande caramunha ao vizinho, dizendo:
- Roubaram-me tudo! Roubaram-me tudo, senhor vizinho.
E daí em diante guardou o seu dinheiro onde ninguém, por mais pintado, dava com ele.

TEÓFILO BRAGA, Contos Tradicionais do Povo Português (Porto)



I

1. O texto “O cego e o Mealheiro” apresenta-nos um cego preocupado com a segurança do dinheiro que tinha amealhado.
1.1. Como é que ele tinha conseguido amealhar aquele dinheiro?
1.2. Em que local “secreto” o costumava guardar?
1.3. Tendo sido roubado pelo vizinho, que estratagema utilizou para reaver o seu dinheiro?
1.4. Depois de ouvir o cego, o que é que fez o vizinho? Porquê?

2. O texto “O cego e o Mealheiro” é uma narrativa portuguesa, onde não faltam termos e expressões populares.
2.1. Explique, por palavras suas, o sentido das seguintes expressões:
a) - “...começou a dar voltas ao miolo...”
b)- “...para ver se arranjava estrangeirinha...”
c)- “...ninguém, por mais pintado, dava com ele....”.

3. Qual é o provérbio que melhor se adapta a este texto.

4. Faz o resumo do texto.