13.7.11

A família dos Is

A Família dos Is

— Ilda é o nome da minha tia. Ildefonso é o nome do meu tio, irmão do meu pai que se chama Inácio. Tenho um avô Isidro e uma avó Isaura.
A minha mãe chama-se Irene e os pais da minha mãe Ilídio e Isolina. Mas há mais: há a minha prima Inês, a tia Idalina, casada com o doutor Isidoro, as minhas primas Isilda e Isabel e a minha irmã Ivone que ainda é muito pequenina para saber o nome.
Quem assim fala dos seus parentes, todos da ilustre família dos Is grandes, é o i ainda pequeno.
— Chamo-me Ivo — diz ele. — Era para ser Hilário, calculem! Mas o seu avô Isidro, quando isto ouviu, segredou ao meu tio Isidoro e o meu tio Isidoro segredou à minha prima Isilda e a minha prima Isilda segredou ao meu tio Ildefonso e o meu tio Ildefonso deu um encontrão ao meu pai, que se preparava para escrever Hilário no livro do registo, e disse-lhe em voz alta: «Hilário é com H, homem!» O meu pai ficou muito corado e escreveu por cima: «Ivo». E Ivo fiquei.
Sou de Ílhavo, mas também podia ter nascido numa ilha qualquer ou em Itália, quem sabe... Ainda lá gostava de ir um dia, de iate, claro.
Hão-de estranhar que tenha nascido em Portugal, que não começa por I, mas não se esqueçam que está situado na Peninsula Ibérica, pois então?
Nunca me perco. E não julguem que sou ignorante. Antes pelo contrário, tenho muitas ideias e algumas fixas. Por exemplo: gostava, quando for grande, de ser ilusionista. Ivo, o ilusionista imbatível, inimitável, incrível! Isto num grande cartaz iluminado. Claro que é tudo imaginação, faculdade de que não sou desprovido, podem crer.
Devem também achar a minha conversa uma tontice da infância, uma ingenuidade, uma manifestação de inocência. Acham que falo caro, que falo importante? Talvez.
Conheço como os meus dedos todas as palavras do dicionário começadas por I. De indicador espetado aprendi a ler todas elas. Perguntem-me o que é intempérie. Eu sei. O que é intelectual. Eu sei. O que é invólucro. Eu sei. Sou o sábio dos Is. Tanto assim que, quando em pequeno me perguntavam quais eram as vogais, eu recitava assim: I, A, E, O, U. Porque é que o A há-de ser o primeiro?
Inteligente e instruído começam por I, tal como eu.
E, por favor, não me chamem idiota!

António Torrado, A Família dos Is
(conto integral)


Responde, com palavras tuas e de acordo com o excerto, às seguintes questões que te são colocadas.

1. No texto encontras a seguinte frase dita pelo narrador: «Sou de Ílhavo, mas também podia ter nascido em Itália, quem sabe… Ainda lá gostava de ir um dia, de iate, claro.»
1.1. Classifica o narrador quanto à presença.
1.2. A quem se está a referir o narrador? Justifica a tua resposta.

2. O que é que todos os membros desta família têm em comum?
2.1. Que membro da família correu o risco de não partilhar essa característica? Porquê?
2.2. Completa a árvore geneológica desta família, colocando os nomes que faltam no sítio certo.



2.3. Coloca por ordem alfabética os nomes dos membros da família dos «is».
2.4. Na tua opinião o título do texto foi bem escolhido? Porquê?

3. Identifica a personagem principal do texto.
3.1. Faz a sua caracterização psicológica (identifica pelo menos quatro características).
3.2. Qual o processo (s) de caracterização utilizado(s)?

4. Na frase «Ivo, o ilusionista imbatível, inimitável, incrível!» está presente um recurso retórico. Identifica-o.


II

Imagina que és um jornalista que enquanto andava a investigar a origem de alguns nomes portugueses conheceu a família dos «is». Escolhe um dos membros dessa família e entrevista-o para saberes como nasceu a tradição de colocar nomes começados por «I» a todos os membros da família. Redige a tua entrevista, que deverá ter no mínimo seis perguntas e as respetivas respostas, como se estivesse publicada numa revista.

Não te esqueças:
• da estrutura das entrevistas;
• das características de uma entrevista;
• de seres criativo;
• de seres rigoroso quanto à construção frásica, à ortografia e caligrafia.