21.7.11

Ao Gás

III

AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!


Cesário Verde


1. Indica sinónimos para os vocábulos e as expressões seguintes: «esmaga» (v. 1), «impuras» (v.2), «exacerbe» (v. 17), «ratoneiro imberbe» (v. 20), «magistrais, salubres» (v. 22), «revérberos» (v. 23), «lúbrica» (v. 25), «escarvam» (v. 33), «mausoléus» (v. 40).

2. Identifica e classifica o conetor que é utilizado repetidamente ao longo do texto.
2.1 Regista o conetor que introduz no poema uma ideia de oposição.

3. Transcreve do texto duas expressões nominais.
3.1 Esclarece a intencionalidade do seu uso.

4. Indica o tempo verbal privilegiado nesta composição poética.
4.1 Justifica a resposta anterior.

5. Classifica o processo de formação das palavras: «impuras», «cutileiro», «burguesinhas», «palidez».
5.1 Esclarece o valor dos afixos utilizados.

6. Denomina o processo irregular de formação das palavras «vitrines» (v. 20) e «meklemburgueses» (v. 33).

7. Divide as orações dos versos 17 e 18.
7.1 Classifica sinteticamente a primeira, a terceira e a quarta orações.
7.2 Identifica as funções sintéticas dos elementos que constituem a última frase.